2 de janeiro de 2006

Imagens de Loucura









"Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confecionado e usado em sete vidas - e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:

"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no detalhado de uma casa gritou:

"É um louco!"

Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras.
Assim me tornei louco.

E encontrei tanta liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós."


Gibran Kalil Gibran

1 de janeiro de 2006

O LOUCO

O número zero está aí para dar início ao 1. Não prescindimos do zero. Sua concepção foi o início da nulidade humana. A partir do zero pudemos todos libertarmo-nos das amarras numéricas e entregarmo-nos ao vazio redondo que o 0 representa.

Enfim, uma bênção. A tão esperada redenção não foi feita de um volume preenchido, mas de um volume tão vazio quanto preciso. Nada é mais preciso que o nada. Nada.

Então, rendamo-nos a essa grafia oval que nos libertou. Precisa e preciosa como é a morte. Ainda bem que morremos. Senão, não haveria a nulidade. O zero é a morte da quantificação estúpida a que somos submetidos o tempo todo. O zero é o tudo do nada.

Por isso os loucos, os insanos, não são compreendidos. Nem poderiam. Nem deveriam. A mágica da loucura está naquilo que nos consome sem que nos apercebamos disso. O nome disso é VIDA.

"Pastor Amoroso"



O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a face dela no meio.
Alberto Caiero