A saudade é um atestado tardio de felicidade.
Pra saudade que eu sinto não há cura, apenas memória.
A memória é prisão, e desapego é o contrário de desprendimento.
O tempo corre devagar pelas bandas de cá.
Eu olho pra dentro de mim quando fecho os olhos.
Eu vejo o topo da Basílica alaranjada pelo sol, vejo a linha de ferro do elétrico e ouço o barulho da sua campainha. Eu vejo o vaso de flores em cima da mesa, vejo a grade que cerca o jardim. Vejo o estendal da vizinha e as roupas brancas penduradas.
Vejo você dentro de mim - vejo-nos com as vistas embaçadas.
Eu não ia dizer nada, mas não consigo tirar isso da minha cabeça, nem tirar esse aperto do peito, então eu vou ter que escrever um pouco, porque eu preciso desabafar.
Começou ontem, oficialmente, o Ano do Brasil em Portugal. Fizeram lá no Terreiro do Paço, se não me engano, umas cenas comemorativas, e coisa e tal. Ontem também foi o dia do Equinócio - começa a primavera no hemisfério sul, e aqui no norte, o outono. Outra coisa importante ontem foi o aniversário da minha mãe, para quem comprei girassóis, assim mesmo à distância, «with a little help from a (cousin) friend». Também foi aniversário de um amigo meu ontem, natural do Porto. Ele dá aulas na Covilhã, e depois de ter passado uns filmes num projeto que ele criou lá na cidade, nós fomos ficando amigos. Em agosto, ele se mudou pra Lisboa, e foi morar numa república de amigos meus, o que me deixou muito feliz, porque agora ele é amigo dos meus amigos também.
Esta é uma república de estudantes, como são quase todas as repúblicas, acho eu. Por lá já passaram brasileiros, italianos, finlandeses, romenos, mas nunca antes tinha lá morado um português. Ele é o primeiro, e foi indicado por mim,que por acaso do destino, nasci no Brasil, sou brasileira. Ontem de manhã recebi uma mensagem desse meu amigo portense, me convidado para seu jantar de aniversário. Cheguei um pouco atrasada, porque fiquei no skype com minha mãe e minhas primas, e meu sobrinho-primo que nasceu há 17 dias. O jantar ainda não estava servido. Estavam lá minha amiga querida da Finlândia - uma das pessoas mais doces e gentis que já conheci - um casal de amigos dela, também da Finlândia, a madrinha do aniversariante, e um casal de amigos dele. Mais tarde, chegou mais um outro casal de amigos. Os rapazes eram naturais da Covilhã, onde eu morei e estudei por 6 meses.
Foi tudo muito bom, estava um clima muito legal no jantar, os aperitivos fartos e muito bem-feitos, conversas amenas, uma ou outra piada de descontração, etc. Fomos, eu e os finlandeses, ao ex-quarto do italiano que recém-partiu de volta pra Milão, com o fim do semestre escolar. Ficamos lá, fumando e falando de vegetarianismo e islamismo, dois assuntos muito polêmicos, rs rs. Quando voltamos pra cozinha, estavam lá os casais contando histórias da Covilhã.
A Covilhã é uma cidade muito pequena, que quase não se sobressai, e apenas tomou mais atenção do povo porque há 26 anos existe lá uma universidade pública, a UBI. Como todas as cidades pequenas, não acontece muita coisa por lá; as pessoas são, em geral, mais conservadoras tanto política como moralmente, e, como toda cidade do interior, pela falta de assunto, a vida alheia é a coisa mais interessante que pode haver. Estavam lá os dois rapazes da Covilhã falando da vida alheia, comentando que fulano saiu do armário, que o outro bebeu demais, que não viam a Fulana Cicrana há não sei quanto tempo, etc. As mulheres quase não falavam, enquanto que seus companheiros fofocavam alegremente. Pessoalmente, prefiro temas mais controversos, e que não envolvam a sexualidade alheia, que isso não é da minha conta.
Por essa razão, o jantar estava basicamente dividido em dois grupos: o dos lusitanos, e o dos estrangeiros. No meio, o aniversariante, que ora conversava com um grupo, ora conversava com o outro. Lá pela meia-noite, senti muita vontade de ir embora, mas acabei ficando (o que me fez arrepender amargamente depois). Nessa altura, os lusitanos estavam sentados perto da janela, e nós perto da porta. Cada qual no seu assunto, cada qual na sua conversa. Eles então começaram a falar sobre o cinema brasileiro. Ouvia palavras esparsas. Um dos rapazes olhou pra trás, para ver se eu estava reparando na conversa deles. Notei o movimento, e olhei pra trás. Ele virou de costas. E assim foi. Do cinema pra cultura brasileira, foi um pulo. Então começaram a falar sobre a mulher brasileira. E sobre o homem. E sobre como as mulheres são vaidosas, oferecidas e que agarram os homens sem a menor vergonha. E como os homens são rudes e mal-educados e agarram as mulheres. E como TODOS os brasileiros são assim-assim-assado. Brasileiros e brasileiras, frisou uma das raparigas. E que eles não têm educação. E mais uma série de ofensas ao povo brasileiro em geral, tomando muito cuidado de falar em uma altura ideal para que eu escutasse bem. De vez em quando, olhavam para trás para se certificar das minhas reações.
Agora, é a parte mais difícil, que é a de traduzir tudo que se passou dentro de mim, durante essa uma hora em que eles ficaram falando do alto de sua propriedade portuguesa como turistas em Salvador e no Rio de Janeiro, sobre a selvagem cultura brasileira. Primeiro, fiquei surpresa com a tranquilidade com que ofendiam o povo brasileiro na minha presença. Como bem disse o Ariano Suassuna, falar mal de uma pessoa na cara dela é muita falta de educação. Não estávamos num bar - estávamos na casa de um amigo em comum, no seu aniversário, e eu era tão convidada quanto eles. Fui ficando com antipatia daquele bando de provincianos. Ainda não compreendo como o meu amigo tem amizade com um povo com a cabeça tão pequena.
O que me dá mais raiva, na verdade, é como atitudes racistas como essas infectam meu estado de espírito quase como uma doença na alma. Ainda estou, como é óbvio, muito perturbada com a atitude deles. O casal de finlandeses anunciou sua partida. Eu talvez iria dormir lá, mas isso significava ter que continuar ali ouvindo ofensas contra o Brasil. Então fui embora também. No caminho, fui pega pela maior tempestade que já enfrentei, fiquei completamente encharcada, andei que nem uma condenada, e por pouco não fiquei doente. Dormi mal, acordei mal-humorada e com ressentimentos de todos os portugueses do mundo. É isso que me deixa mais chateada - como o ranço negativo de algumas pessoas faz com que eu sinta raiva de tudo, que me arrependa de ter vindo pra cá, que fique eu mesma com pensamento racistas - todos os portugueses são uns infelizes, mal-humorados, mal-educados, racistas e invejosos, sem amor-próprio, etc. Que raiva por me deixar contaminar por esses imbecis. Que raiva por não ter feito nada - mas, fazer o que? Bater boca com gente ignorante não adianta muita coisa. Se eles não têm educação, nem consideração pelo próprio amigo aniversariante, deliberadamente ofendendo uma de suas convidadas, eu é que ia não descer ao nível deles, e estragar o jantar para todo mundo.
E não deixa de ser notável que nesta república, que sempre abrigou estrangeiros, eu nunca tenha passado nenhum momento constrangedor por ser da nacionalidade que sou, muito pelo contrário. Sempre fui muito bem-recebida por lá, conheci pessoas de vários lugares do mundo neste apartamento, todos sempre muito gentis uns com os outros, e os habitantes da casa sempre muito contentes desse espaço multicultural. É uma pena que isso tenha mudado justamente com a presença dos portugueses.
Para não me deixar afetar pelo racismo dessas pessoas, eu faço uma lista mental das boas pessoas que eu conheci aqui, com quem fiz amizade, mesmo que passageiras - eu me esforço para lembrar daqueles portugueses que foram gentis comigo na loja, na rua, etc. Lembro do Fernando Pessoa e do José Saramago. Tento me lembrar das coisas bonitas de Portugal, e dos momentos felizes que eu passei aqui. Eu não quero reforçar os estereótipos, não quero agir nem pensar como essas pessoas.
Então eu me deparei com dois trabalhos científicos sobre o racismo em Portugal - são enormes, vai demorar um pouco até que eu possa ler. Num desses trabalhos, já nas primeiras páginas, encontro um link: «Um exemplo hilariante de jogo com os lugares-comuns da comunicação social e com os estereótipos sobre os muçulmanos resultantes do desconhecimento é o sketch do Gato Fedorento».
Então esta é a minha vingancinha contra os racistinhas de ontem à noite, este vídeo que ridiculariza o tipo racista, ignorante e inútil que infelizmente existe em qualquer lugar do mundo. O engraçado mesmo é como o preconceito que existe aqui contra os árabes e outros povos do Oriente Médio me leva a crer que o pessoal não tem espelho em casa, porque no sul de Portugal o que tem de gente com cara de árabe, com os olhos grandes, os cabelos bem pretos e grossos, a barba cerrada, a pele morena, o nariz grande... mas eles são muito ignorantes para saber que tais características físicas vêm do sangue dos mouros que invadiram Portugal no século 14. Eles têm preconceitos contra si próprios. Que falta faz uma boa educação!
Seguem os links dessas duas pesquisas sobre o racismo em Portugal.
Quando eu tinha 20 anos eu participei, pela primeira vez, da realização de um curta-metragem, na função de produtora de objetos, de cenário e de figurino, função que dividi com duas outras moças. Foi uma tarefa bem-sucedida, posto que o filme recebeu o prêmio de Melhor Figurino na Mostra da ABD-Goiás, em 2004. Foi o meu primeiro filme, e o meu primeiro prêmio. O diretor do filme não dividiu a grana do prêmio conosco - e foi logo aí que presenciei o primeiro racha na equipe que até então era composta por amigos. Uma das figurinistas ficou particularmente chateada com isso, mas o engraçado mesmo é que, quando o filme que ela dirigiu (e eu produzi, e no qual todo mundo trabalhou de graça) ganhou o prêmio de Melhor Filme Univesitário, ela não dividiu o prêmio com ninguém - e depois que a roteirista chiou e bradou e bateu o pé, ela ganhou lá uns 300 reais. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né?
Quando o «Boca no Lixo» ganhou um prêmio de 10 mil reais de Melhor Curta Goiano, em 2007 ou 2008, não me lembro bem, todo mundo que trabalhou ganhou a sua parte no prêmio - e eu fiz questão de que fosse uma grana boa, porque não foi um prêmio de direção, foi um prêmio de equipe. A co-diretora do filme era a mesma menina do filme que mencionei no parágrafo anterior. Diante da minha veemência, ela não se opôs completamente, mas achou que as fatias estavam grandes demais. De todo modo, ficou o valor que eu estipulei.
O cinema, como qualquer outra atividade humana, não prescinde da ética, não prescinde de uma regulação. As pessoas pensam diferentemente umas das outras, mas elas precisam chegar num acordo. Cada um faz o filme que quiser, produz da maneira que lhe é conveniente, mas precisa arcar com as consequência do seu modus operandis e enfrentar as críticas, e defender o que pensa. Nenhum filme é unanimidade, e nenhum filme escapa da dimensão ética, seja no estágio de pré-produção, pós ou quando cai na mão da plateia.
Lá se vão oito anos desde o meu debut como figurinista, e lá se vão seis anos do debut como diretora de uma ficção. Não é muito tempo, eu sei, mas já é uma estrada, um atalho ou um caminho. Nesse período, fui iniciada na cinematografia brasileira e mundial, e um dos expoentes de ambas é o famoso Glauber Rocha, muito conhecido também pelo íntimo e casual Glauber. No Brasil, e isso eu já até li n'algum lugar, existe uma proximidade muito grande com seus «ídolos», com suas figuras públicas. É uma intimidade que o povo tem com as pessoas famosas, seja de quais áreas forem, e que eu acho particularmente admirável. É o Glauber, é o Chico, é o Caetano, é o Gil, é Bethânia, é Gal. Talvez o único que não seja assim chamado sem o sobrenome é o Sílvio Santos, mas é porque o povo fala como se fosse uma coisa só: Silviosantos.
Pois é. A Cinemateca Portuguesa, o primeiro lugar que eu conheci quando cheguei em Lisboa, há quase 2 anos, vai fazer uma retrospectiva do Glauber. E eu, que apesar de há tanto tempo envolvida com isso de cinema, nunca consegui ver um filme inteiro dele (exceto pelos curtas, Di Cavalcanti e Maranhão 66) sem dormir ou desistir, ou porque estava mesmo com sono, ou porque a cópia da internet era tão ruim que eu não via nem entendia nada do que o povo dizia.
Mas agora eu não tenho mais desculpa, porque a Cinemateca vai exibir as películas restauradas, com legenda e tudo o que se tem direito. Estou mesmo emocionada com a possibilidade de ver o Glauber em tela grande, no cinema, em 35mm (sou fetichista mesmo). Quero ver todos os filmes, todos, porque quero aproveitar essa oportunidade de, fora do Brasil, ver o seu ícone máximo do cinema.
Fiz uma agenda e vou tentar cumpri-la à risca.
Dia 10, 19h Barravento
Cartaz no Brasil, França e Reino Unido
Dia 10, 22h
Terra em Transe
Dia 12, 19h30 Deus e o Diabo na Terra do Sol
Um cartaz brasileiro que eu ainda não conhecia, a versão alemã e a versão francesa. Clique para ver maior.
Dia 13, 22h
Câncer
Dia 14, 21h30
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (a.k.a. Antônio das Mortes)
Várias versões, inclusive uma (a quarta) que me parece ser alemã
Dia 17, 21h30
Der Leone have sept cabeças (O Leão de Sete Cabeças)
Cartaz francês e alemão, sendo que a ilustração do primeiro é uma obra do Kandinski
Dia 18, 21h30
Cabezas Cortadas
Cartaz alemão (ou austríaco?) e o cartaz brasileiro
Dia 24, 22h
História do Brasil
O próprio
Dia 26, 22h
Claro
Um arremedo de cartaz, não sei se é o original
Dia 27, 22h
A Idade da Terra
Dia 27, 19h
Curtas-Metragens
Pátio | Amazonas, Amazonas | Maranhão 66 | Di Cavalcanti
O polêmico filme feito no enterro do pintor Di Cavalcanti
«É preciso ficar calma», pensou ela enquanto bebia a taça de vinho branco e tentava encontrar o isqueiro. Respirou fundo e rangeu os dentes levemente, enquanto os olhos se fechavam para o mundo e se abriam para o pensamento. «Perdi de novo».
O mundo pegando fogo ao lado da igreja, Portugal inteiro em chamas, e ela só se preocupava com duas coisas: o machucado entre os dedos dos pés e a degradação lenta e contínua do seu relacionamento com o ser amado. Mas que ideia idiota essa de se casar, de morar junto. Isso só serve mesmo para tirar ideias para roteiros de filmes de amor que acabam em tragédia. Ela já havia bolado uns tantos quantos. O último tinha até nome, «Mosquito». Mais um curta para entrar na gaveta - o que seria uma pena, já que esse era mesmo bom, tinha tudo para ganhar uns 40 mil reais em algum edital público. Ainda não entendia porque o governo deve pagar a terapia dos cineastas, que é fazer um filme das suas neuroses, mas, enfim, «quem sabe sobre um pedaço do bolo pra mim?». De todo modo, já estava de regime há um bom tempo.
«Vai abrir o vinho?».
«Não. Faz mal pra mim tomar vinho todos os dias».
Não é o que os médicos da Super Interessante dizem. Uma taça por dia ajuda o coração a bater melhor, quiçá ajuda até a curar mal de amor. «Mas eu não tomei vinho ontem. Egoísta». Se fosse ele outro, diria-lhe que abrisse o vinho e tomasse lá a sua taça, sozinha, enquanto fumava um cigarro com a mão para fora da janela e a boca torta, inutilmente soprando a fumaça pra longe, que essa teimava em voltar pra dentro devido à corrente de ar.
O verão tem duas utilidades hoje em dia na Europa: promover trabalho temporário para os 11 milhões de desempregados da Espanha e manter a cadeia alimentar baseada na existência e proliferação dos mosquitos. Durante o dia, sabe lá deus onde os malditos se metem, mas à noite eles vêm todos para o quarto, e como são uns mosquitos modernos, possivelmente com sua genética modificada, eles zunem ao redor dos ouvidos, mas percebem o movimento dos nossos olhos e se escondem na nuca, que ninguém tem olho nas costas (seria bom).
E porque numa certa noite eles não a deixaram dormir, mesmo depois de folheadas as páginas do «Memorial do Convento», e de fechados o livro e os olhos, ela acordou enfurecida e foi lá acertar as contas com o pobre coitado que dormia de livre e espontânea tristeza no sofá (já sequer lembrar porque é que ele lá foi parar). A geladeira nunca mais foi a mesma, arrancou-se todos os testemunhos da felicidade conjugal. «As flores secas são como nós», e pôs-se a destrui-las todas, numa cena digna de Almodóvar ou novela das oito (bons tempos aqueles). Ficou mesmo foi com dó do pé-de-feijão, que presenciou horrorizado o acalorado embate e murchou de tristeza e pena no outro dia.
Almoçaram feijoada, mas esqueceram de guardar uma unidade do grão para recomeçar a pequena horta, e quem sabe, tentar ser feliz de novo.
Cabo Verde é um arquipélago que já foi colônia do Império Português e que hoje é ponto turístico para espanhóis, ingleses e italianos, e outros europeus também. Nos últimos anos, só cresceu o interesse pela ilha, e de vez em quando surgem por lá uns hotéis muito caros para os abonados vizinhos de cima. A tal crise do Euro que desde 2008 assombra a União Europeia já deu as caras por Cabo Verde - vários investimentos em infra-estrutura, provenientes de cofres espanhois, por exemplo, têm sido deixados de lado devido à falta de dinheiro latente e urgente.
Cabo-verdianos e senegaleses, que são grande parte da população de imigrantes nas ilhas, sofrem as consequências no bolso e na já incipiente qualidade de vida. O preço da comida, da renda (aluguel) e da concorrência sobem, enquanto a oferta de trabalho diminui e as remessas de dinheiro para as famílias do Senegal, por exemplo, diminuem juntamente.
A situação na ilha é sempre cara, uma vez que eles nada produzem, que a terra não é muito fértil e que, afinal de contas, Cabo Verde é um país formado por ilhotas ao norte da África, banhadas pelo Atlântico, e que só foram povoadas com a migração forçada de negros oriundos do continente africano.
O que digo aqui não li no jornal - são coisas que aprendi com as andanças de meu companheiro viajante e pesquisador da imigração senegalesa em Cabo Verde. Seu projeto de mestrado levou-o às ilhas, e em breve, irá levá-lo a Dakar, capital do Senegal.
Nesta última ida às ilhas cabo-verdianas, numa das quais nasceu a gloriosa cantora Cesária Évora, meu companheiro conheceu um guia turístico chamado Ddudu, e prometeu-lhe que nós faríamos um panfleto de divulgação de seu trabalho. As fotos são de sua última viagem, e o design e tratamento das fotografias foram feitos por mim. Este é o resultado!
Depois de uma noite de muita apreensão e dúvida, ocasionadas pela inspiração súbita que me acometeu e que me fez trabalhar toda a madrugada na atualização do meu portfólio, finalmente estou mais descansada em relação àquilo que me afligia.
Esta «condição estrangeira» momentânea a qual experiencio em Portugal obriga-me a tomar providências burocráticas de quando em quando. Como no ano passado fui relapsa, para não dizer completamente irresponsável, relativamente à renovação do meu Título de Residência Temporária, tive que pedir novo visto enquanto estava no Brasil. Da mesma maneira, fui relapsa e deixei tudo para o último momento. Além do dinheiro que poderia ter poupado - quase 300 reais - fazer novo visto implica em um bocado de trabalho (menos do que foi na primeira vez, com certeza, pois já se sabe o caminho das pedras). Para piorar, eu estava com a passagem de avião para Maceió já marcada (em verdade, eu ia mesmo para Olinda), e sem a certeza de ser atendida a tempo no consulado português.
Por isso (e por outro tanto) não posso reclamar da minha sorte. Salva pelo gongo, consegui o visto a tempo de embarcar de volta para Lisboa.
Agora, refletindo enquanto tento escrever embalada pelo balanço do comboio, penso que havia uma parte muito grande de mim que não queria voltar para Portugal, após minha longa passagem de três meses pelo Brasil, entre novembro e janeiro. Ou então, sou minha própria «Lei de Murphy», que se boicota a fim de provar sei lá o quê.
***
(a fim de --» a propósito de)
(afim --» afinidade)
***
Mas a minha decepção com o curso de Cinema da UBI, especialmente no que diz respeito à inépcia da minha turma e na distância entre os estudantes entre si, é compensada de tão inúmeras maneiras que descrevê-las faria deste pequeno texto um compêndio. De fato, estou felicíssima por poder estar na Europa, morando com a pessoa que amo, estudando o que gosto, e realizando um sonho de viajar pelo velho continente.
Fosse eu menos pão-dura, ou menos apegada, ou menos taurina, não sofreria tanto pelo dinheiro que julgo mal gasto no curso da UBI. Hoje penso que poderia ter tentado ir para a Alemanha, mas quando reflito melhor, concluo que estou a desejar uma coisa que à época eu não teria feito, e acabaria por não viajar coisa nenhuma.
Isso me faz pensar em como se deu a possibilidade de eu estar aqui: vim com o dinheiro recebido pela venda de um lote, herança do meu bisavô Teotônio Nunes, pai de minha avó Ení. Ele era taurino também, se não me engano, e grande parte dos bens que conquistou gastou-os viajando pelo mundo. Então acredito que não haveria maneira melhor de gastar aquilo que ele me deu.
***
E após essa longa digressão retorno enfim ao que eu queria inicialmente dizer. Que vim hoje à Covilhã, no autocarro das 9h50, seguindo da Estação Sete Rios (linha azul, Jd. Zoológico), muito apertadinha mesmo sentada no melhor lugar. Que vim para buscar um documento (ou dois) que comprovassem que sou aluna da UBI, matriculada e com as propinas pagas.
A grande questão é que ontem, dia do aniversário de 22 anos do meu irmão Virgílio (que também está fora do Brasil, em Perth, na Austrália), recebi um e-mail do profº Nogueira sobre um estágio na Rosa Filmes, produtora de cinema de Lisboa. Foi por isso que me inspirei para atualizar meu portfólio, e o que parecia ser uma tarefa simples e rápida acabou por se mostrar demorada. Não que isso seja ruim, pois significa, na verdade, que eu fizera muitos trabalhos (1 cineclube, 3 festivais de cinema e 1 curta-metragem). Eu já havia passado a tarde toda a resolver uma pendência com relação à minha videoarte «Solilóquio para Agonias Distendidas», que era a de inserir os nomes das músicas utilizadas no filme aos créditos finais, retirar a UBI como «produtora» do fime e colocar a «Conosco - Cinema & Arte» no lugar, e, por fim, as legendas, em inglês e português (aliás, essa urgência em finalizar propriamente o filme deveu-se a um outro e-mail do profº Nogueira sobre um festival de videoarte que acontece em dezembro, em Lisboa).
Acredito que eu estava mesmo tomada por um espírito de urgência em resolver tais pendências para então poder focar na pendência-mor, que é a finalização do documentário «Filmes de Papel», meu projeto final na UBI.
***
(Vista maravilhosa do rio Tejo. Lembro de uma história linda com minha mãe das viagens de ida-e-volta Lisboa-Covilhã, liguei para ela de dentro do comboio e pedi para ela ler para mim a poesia do Fernando Pessoa sobre o rio Tejo. Foi um momento mágico e lindo entre nós duas, que não nós víamos há quase 1 ano. Choramos as duas ao telefone. Agora me vem à mente aquela música do Chico Buarque, «Tanto Mar». Tenho-a no mp3. Ouço-a agora. Foi para este meu momento que ele fez esta música?
«Tanto Mar», de Chico Buarque
Envio uma mensagem ao celular de minha mãe, ao que ela me responde: «Te amo». Ainda bem que também tenho no mp3 o «Fado Tropical»).
«Fado Tropical», de Chico Buarque e Ruy Guerra, da peça «Calabar»
***
E mesmo completamente esgotada (porém, muito satisfeita) da intensa madrugada, e apesar de ter quase desistido de viajar, apenas adiei a viagem das 8h pela das 9h50. Cheguei na Covilhã e logo apanhei o pequeno autocarro (uma van), que me deixou à porta da UBI. Senti o cheiro e a brisa fresca da cidade, logo após de ter desfrutado da gentileza comovente do povo da cidade, dos velhinhos sorridentes e prestativos. Então percebi que minha saudade era muito maior do que eu supunha, e uma lágrima de felicidade melodramaticamente eu chorei.
(E agora, «Catavento», interpretado por Maysa em 1969, mais uma música sobre distância, saudade e mar).
Maysa canta «Catavento»
E eu voltei à Covilhã para poder permanecer, e encontrei pessoas boas que me ajudaram e foram gentis, e só posso pensar que tenho tanta sorte por poder reconhecer nisto o que afinal é a felicidade. A gentileza, a solidariedade, a amizade, um «eu te amo», um sorriso e uma conversa fiada. O Tejo. As músicas e a poesia de Pessoa («porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia»). Porque o Tejo se liga ao oceano Atlântico, e este vai até o Brasil. Então eu me conecto com a minha saudade pela água, pelo vento, pelo pensamento. É como no curta «Noite de Sexta, Manhã de Sábado», do Kléber Mendonça Filho, cuja história contei para minha mãe e ela chorou sem ter visto o filme, e depois chorou novamente porque há uns dias ela finalmente pode vê-lo.
***
Assim que saí dos Serviços Acadêmicos, com lenço e documento, fui diretamente tomar um café expresso no Oitavo's, como eu sempre fazia. Então liguei para o meu amigo alentejano Kinito, como eu sempre fazia. E ele também estava na Covilhã, por um mero acaso do destino, posto que ele também já não mora mais lá. Há um ano que não o via, e ele foi imediatamente encontrar-se comigo.
Enquanto ele devolvia os equipamentos de filmagem que usou para «uma curta verdadeiramente alentejana», eu fui ao Jardim Público, estendi meu lenço na grama e almocei o que havia preparado especialmente para a viagem, às 7h da manhã. Acabei descobrindo um velho isqueiro que dei para o Kinito. Ele ainda se parece muito com o meu primo Pedro.
Fomos ao R&F Lanches, do seu António, cujas deliciosas bifanas me salvaram inúmeras vezes da fome atroz, e quando vimos que já eram 4 e 20 da tarde, fomos à casa de um colega do Kinito para eu procurar na internet os horários dos autocarros.
***
Mas a história não acaba aqui. Felizmente, não havia mais autocarros para o dia de hoje. Então, apesar de ser mais caro, resolvi pegar o comboio, pois senti que era melhor voltar a Lisboa do que passar a noite na Covilhã (afinal, eu deixei a roupa pendurada no estendal).
Cheguei 1 hora antes da partida do comboio, às 17h35, e por isso consegui uma ótima poltrona, à mesa, na direção do comboio, à janela. E por isso me pus a escrever, e por isso vi o rio, e por isso ouço o Chico. Hoje foi um ótimo dia. E, «amanhã vai ser outro dia».
«Apesar de Você», de Chico Buarque
P.S. 1: Hoje é dia 29 de maio. Faltam 10 meses e 29 dias para meu aniversário de 29 anos.
P.S. 2: O meu atual marcador de páginas é ilustrado pela foto de uma ciclovia, por sua vez «ilustrada» por trechos, justamente, da poesia do Pessoa sobre o Tejo, a mesma que há cerca de um ano minha mãe leu, lá do Brasil, para mim.
O Tejo
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, A memória das naus. O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
«Eu não sei se é saudade, se é solidão ou carência, mas eu tenho sentido
como se todos os sentimentos do mundo estivessem dentro de mim - tudo me
emociona e me faz chorar, mas não é de tristeza. É porque o mundo é essa coisa
bela e feia ao mesmo tempo, as pessoas se matam e se ajudam, se amam e se
odeiam, uns sofrem a vida toda, outros só conhecem a felicidade. E tudo isso é
muito, é demais para suportar. A gente quer viver bem, quer ser feliz, ao mesmo
tempo que faz tanta besteira e se coloca em situações perigosas e de
risco.
Eu penso nos amigos que eu eu fiz e que eu perdi, onde eles estarão? O que
eu faço com o amor que ficou aqui, entalado na garganta e doendo no coração?
Então eu penso nos filhos dos meus amigos, que eu amo, alguns mesmo sem
conhecer, e nas minhas sobrinhas que nunca hão de ser minhas e nunca hão de me
chamar de tia.
E penso em tudo isso e penso que você está comigo, mas que eu me esforço
estupidamente para te afastar de mim com minhas críticas e com minha aspereza,
porque de alguma maneira eu ajo como se não merecesse ser feliz»
«Paula e Bebeto», de Milton Nascimento e Caetan Veloso, em «Minas», de 1975
Mais um dia das mães longe da minha. Este ano não fiz um postal para ela, como no ano passado. Mas liguei e falei com ela e com as outras mães presentes.
E porque hoje é dia das mães, eu lembrei da velha analogia que são os filmes e os filhos. Já ouvi muitos realizadores fazer essa brincadeira, especialmente quando o filme fica pronto e em pouco tempo, vai para o mundo. Acabei por pensar em algumas analogias entre as crias humanas e cinematográficas.
1. Muito dificilmente podemos fazê-los sozinhas.
2. A concepção demora e dura vários meses, geralmente.
3. É difícil ouvir alguém falar mal ou criticá-lo.
4. Fazemos não para nós, mas para o mundo.
5. A um certo momento, cria asas e já não precisa mais de nós para circular.
6. Geralmente temos orgulho do que fizemos, mesmo que não saia tão bem quanto pensamos que poderia!
E estes sãos os meus «filhos»: «Cadê a Véia?», o mais velho, de 2006; «Sons do Centro», 2006 (com Thiago Ramos); «H.O. Memórias de Arquivo», de 2007 (com Raimundo Alves), «Boca no Lixo» (2007), uma co-direção, e o mais recente, «Solilóquio para agonias distendidas», de 2011, que fiz com ajuda do João Feitor, português da gema e ótimo câmera.
Não vejo a maternidade como uma certeza em minha vida. É engraçado como ainda hoje espera-se que, a priori, uma mulher tenha o desejo e coloque como meta em sua vida a geração e criação de uma criança. Talvez porque resida nela, como ser humano do sexo feminino, a chave para a gestação da continuidade da espécie, mas podemos estar muito além do que as imposições biológicas nos dizem para estar. Esse tipo de pensamento, embora de fato pertença a muitas mulheres - provavelmente a maioria delas - começa a causar um certo constrangimento à medida que uma mulher envelhece e não tem filhos. Sempre haverá alguém para questionar a ausência da maternidade, nem que seja para puxar assunto.
Eu, que sou uma mulher de 28 anos, já me vejo às voltas com perguntas as quais não sinto que devo responder, ou que estejam em questão. Ainda que a maternidade fosse uma meta para mim, há ainda outras que desejo conquistar e a mim me importam mais, ao menos no momento.
Já sonhei estar grávida inúmeras vezes, e inclusive sonhei, há uns dias, que carregava mesmo um bebê (que por sinal era mágico). E confesso que sempre gostei da sensação de carregar uma criança, dentro de mim ou nos meus braços. Não posso mentir: eu e as crianças nos damos bem.
Mas, por enquanto, ainda prefiro sonhar que as tenho ao invés de tê-las de verdade. Fico com meus filmes, com meus planos de trabalho, de viagem... e o que mais pintar. Se tiver de ser, será?
Por mais que a vida seja dura e feia, sempre tentamos fazer nosso dia-a-dia menos sofrido, e nossa vida mais significativa. Algumas pessoas, de posse de sua experiência de vida e de suas habilidades criativas e técnicas, traduzem alguns pensamentos em imagens e palavras. Não é literatura nem filosofia, mas vale a pena prestar atenção em algumas ideias semeadas.
«Esta é a sua VIDA. Faça o que ama. E o faça com frequência. Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não gosta do seu emprego, demita-se. Se você não tem tempo suficiente, pare de assistir televisão. Se está à procura do amor da sua vida, pare. Ele estará à sua espera quando você começar a fazer coisas que ama. Pare de analisar demasiadamente. A vida é simples. Todas as emoções são belas. Quando você comer, aproveite. Cada pequeno pedaço. Abra sua mente, braços e coração para pessoas e coisas novas. Somos unidos por nossas diferenças. Pergunte para a próxima pessoa que encontrar qual é sua paixão, e compartilhe com ela o sonho que te inspira. Viaje com frequência: perder-se é uma forma de encontrar a si mesmo. Algumas oportunidades só surgem uma única vez, procure por elas. A vida é as pessoas que você conhece e as coisas que vocês criam juntos. Portanto, saia e comece a criar. A vida é curta. Viva seu sonho e vista sua paixão».
Para quem nunca ouviu falar, vou tentar explicar bem resumidamente o que é o 9gag: um site de imagens, em geral engraçadas, cômicas, irônicas, satíricas ou sobre gatinhos, peitos e Harry Potter. Pessoas comuns criam as postagens, contando histórias através de «desenhos» que, apesar de terem sido criados por alguém, não pertencem mais a essas pessoas, pois são usados por milhares sem nenhuma notificação. A esses desenhos e a outras imagens que se tornam ícones, chamam-lhes «memes». No início, eu pensava que apenas os desenhos eram «memes», mas outros tipos de imagem também podem ser considerados «memes». O conceito, aliás, é super interessante e tem tudo a ver com o compartilhamento que faz a internet ser o que ela é: um espaço de trocas. Dá uma olhada nesse artigo do Wikipedia (que original!). Segundo o artigo, «meme» é uma coisa que se «autopropaga», e tem toda uma tese a respeito. Muito interessante, e com certeza vários acadêmicos já devem estar se debruçando sobre o assunto.
Mas, afinal, por que estou aqui explicando isso tudo?
Porque eu adoro visitar (as páginas antigas) do 9gag, e tenho colecionado várias dessas imagens para, quem sabe um dia, fazer algo legal com elas. E, é claro, depois de um tempo, eu mesma passei a produzir uns memes. É claro que eles nunca fizeram sucesso e jamais saíram do buraco negro a que chamam «vote page» (são os usuários do 9gag que votam no que é ou não é super-hiper-legal. Entretanto, com a popularização do site, muitas pessoas que nasceram depois de 1995 tomaram conta do site, há cerca de 1 ano, e a qualidade das postagens caiu muito. Por isso que sempre visito as páginas antigas).
Então vou aqui compartilhar esse «meme» que eu fiz!
Um belo dia de primavera, no ano passado, eu encontrei uma revista mais velha do que eu, intitulada «Cinema». Em preto-e-branco, com uma diversidade de textos sobre cineastas europeus, a publicação foi de responsabilidade da Federação Portuguesa de Cineclubes, e estava muito bem-feita e bem conservada (talvez mais do que eu mesma). Por apenas 2 dinh€uros, ela tornou-se minha.
Para poder compartilha-la com meu profº de Cinema Português, o profº Frederico, da UBI, eu escaneei a dita cuja, mas a falta de prática com o escaner fez com que uma página ficasse em falta, e outra duplicada. Durante um ano o arquivo ficou parado no meu computador, até que eu tomei vergonha nessa carinha linda!, e baixei um editor de arquivos em formato PDF (aleluia, senhor).
Mandei pro profº Frederico, tudo certo, ele gostou, maravilha. Mas eis que, após um mês, o Rapidshare me manda um aviso, dizendo que o arquivo seria deletado uma vez que se encontrava inativo, i.e., nenhuma outra alma baixou a revista.
Então resolvi compartilhar no facecu, e mais de 30 pessoas já baixaram a revista! Fiquei feliz, né, não vou mentir!
Se você está curioso para ver essa belezinha, pode baixa-la aqui!
3 de fevereiro de 2012
No Porto, Portugal, 2011.
Vi num blog, compartilho a frase...
«Jamais vu... the opposite of déjà vu. It's when you meet the same people or visit places again and again, but each time is the first. Everybody is always a stranger. Nothing is ever familiar».
Tem uma saudade gigante dentro de mim. Ela não é só uma saudade, na verdade. Ela é mesmo uma dor física, um desespero, um susto que se apercebe da passagem do tempo, da finalização dos ciclos, e por isso choro enquanto vejo o presente tornar-se passado, e o agora virar memória. Neste momento só há espaço para a tristeza, porque mesmo a alegria fica triste quando vê que ela deve ir embora, para dar lugar, oxalá, a outras alegrias.
Eu já nem lembrava como foram difíceis os primeiros dias na Covilhã. Eu já não lembrava dos dias em que chorei de saudade porque agora só tenho olhos pra chorar essa saudade nova, que brotou tão rápido e que encontrou, no solo desse amor pela cidade, um terreno fértil. Dezenas de microfilmes passam pela minha cabeça, e eu só consigo pensar que eu curti cada segundo de estar lá, que eu gostava de estar no alto e ver a cidade aos meus pés; gostava de me agasalhar do frio e de reclamar dele, para depois ir dormir tão quentinha na minha cama. E acordar feliz porque tinha dormido bem, porque eu tinha aulas, e mesmo que não fossem as melhores do mundo, eram as minhas, e sempre me davam algo sobre o que pensar.
Eu almoçava na cantina, tomava um café e ia para a biblioteca. Depois voltava pra casa, cansada… fazia comida, fumava um cigarro, escrevia, lia. Adormecia. Vinha para Lisboa louca de saudades do meu bem, mas já depois de uns dias, enlouquecida pelo caos, só desejava voltar pra minha Covilhã, tão cheirosa, tão calma, tão sossegada, tão cheia de amigos e amigas que nunca me deixaram na mão.
A minha saudade só tem tempo para as lembranças boas. Para as ruas cinematográficas que eu filmei, e para as ruas que eu não consegui filmar. Tenho na minha memória cada pedaço de chão, cada casa, cada varal que eu vi e amei. Amava minha rotina, amava a ideia de ter uma rotina, amava estar estressada com os trabalhos, amava entrega-los e esperar ansiosa pela nota.
Passou rápido demais. Eu fui me apaixonando aos poucos e agora sinto uma dor equivalente ao fim dos romances. Ela doeu-me fisicamente, eu solucei e chorei umas lágrimas tão grossas porque sabia que ali se encerrava um período da minha vida que eu não estava preparada para ver acabar. É uma dor que equivale à da morte: a morte de um período da minha vida, a morte da convivência diária com alguns amigos e amigas.
Não mais subir a ladeira de Santo Antônio, e ver a lua nascer desavisadamente; não mais tirar fotos da minha sombra com a sombra da árvore; não mais pegar a chave na portaria e agradecer por estar há meses no quarto sozinha; não mais cozinhar no 1º andar, andando pela residência com pratos, copos, panelas, e fazendo cheirar a tudo com meu tempero cheio de alho e cebola. Não mais ir ao Universário com o Miro comer sandes de frango e cerveja a €0,50 cêntimos. Não mais visitar o Joaquim, não mais tomar café com o Ricardo, não mais sair com as meninas do Brasil, não mais fumar cigarro com a Sónia. Não mais tantas coisas. Acabou. É tão simples e tão cruel. Eu sei que vou sentir tanta saudade, que não preciso espera-la chegar para sentir que ela já chegou.
Meus olhos estão ardendo. Meu coração está diminuído. Covilhã, obrigada por ter-me feito tão feliz.
Há quanto tempo não escrevo nada no blog, mas não é exatamente por falta de assunto. Dia 3 de Junho faz 7 meses que estou "a morar" em Portugal. Tanto a dizer, mas tão pouco tempo. Talvez agora eu consiga escrever um pouco sobre tudo o que aconteceu, tudo o que vem acontecendo desde que vim pra cá, já que finalmente adquiri um computador portátil (é melhor do que notebook ou laptop).
Moro em Covilhã, pequena cidade montanhosa, que existe desde 1186, quando tornou-se uma vila, e é um município há 140 anos. Tem cerca de 35 mil habitantes, muitas ladeiras, uma parte antiga que é encantadora, e uma parte nova de característica moderna, que não me atrai particularmente. Tanta gente já me perguntou como vim parar na Covilhã, quase como se a cidade não existisse. Perguntavam-me de uma forma que eu até me constrangia, quase pedia desculpas por estar aqui. Mas, respondendo à pergunta que não quer calar... O que me trouxe à Covilhã foi a UBI - Universidade da Beira Interior, onde faço Mestrado em Cinema, mas que está em vias de tornar-se tão-somente uma pós-graduação, pois não pretende fazer o 2º ano (o que reduzirá sensivelmente minha estadia na Europa).
Cheguei em Portugal dia 3 de Novembro de 2011, em Lisboa, e lá fiquei até o dia 5, sexta-feira. Então vim pra Covilhã. Cheguei aqui à noite. Não tinha nem o que comer nem cigarros pra fumar. A cidade estava deserta. Peguei um táxi e fui pra residência. Acertei em cheio o local (coisa rara), e descobri que estava no quarto 310. O segurança da residência foi super antipático. É claro que ele não me ajudou a levar nem ao menos uma das malas. Sobrevivi até o terceiro andar. E aqui passei a viver.
Poxa, faz tanto tempo que isso aconteceu... Registrei em um papel minhas primeiras emoções, que foram amedrontadas mas otimistas. Bem, acho que ainda não estou preparada para contar como foram os primeiros tantos. São tantas memórias. Deixarei-as vir por capítulos. E este texto fico sendo a apresentação.
Meu pai Que nos fizeste pai que desuniste não me lembro de ti assim belo, meigo, triste ai de mim! que fizeste de nós as três donzelas? minha mãe era uma delas minha irmã e eu e José o varão que morreu passaste veloz pela minha infância breve paternidade mas ficou-me um gosto de pai na minha tenra idade e por isso ser mais forte que o marido infiel que o pai ausente olho-te e vejo o melhor de ti o mais terno o mais belo o pai mais desejado que pouco vi.