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6 de fevereiro de 2014

Peixe Morta

O ser humano pode ser tão fraco como uma mosca ou estúpido como um peixe. Às vezes, um ou outro se sobressai e abre um pequeno furo na mente das pessoas, por onde passa um pouco de ar ou um feixe de luz. A esses chamam de mentores, mestres, professores, pensadores - homens e mulheres. Durante a história da humanidade sempre vamos encontrar estas personagens que conduzem seus contemporâneos – e muitas vezes suas lições perduram para além de sua morte física. Em suas palavras e ensinamentos, os condutores da humanidade resistem e sobrevivem.
"Another Dead Fish". Drawing by Ribbitty Rabbitty
Na época em que não havia tantos meios de comunicação, o envio de cartas, postais e telegramas significava mais do que se comunicar – era de fato uma forma de se relacionar verdadeiramente com as pessoas (vide “Cartas a Théo”). As cartas eram cuidadosamente guardadas e de quando em quando relidas e relembradas. Nada nos impede de hoje em dia fazermos o mesmo com os nossos… e-mails?, mas só quem possui uma caixa de sapatos cheia de memórias eternizadas em finos papéis de carta e grossos papéis-cartão, dentro de envelopes rasgados e selados, sabe do que estou falando. Não é difícil perceber a diferença entre um punhado de cartas e 15 gigabites de informações desencontradas e divididas em vários endereços de e-mails, perfis da sociedade virtual e afins.
Penso na lei da oferta e da procura, tão cara ao capitalismo, e que é a medida do valor das coisas. A grande quantidade de informação de que dispomos nos torna negligentes com relação a ela. Ao mesmo tempo que nos angustiamos ao percebemos o quanto há para se conhecer, saber e aprender, nos conformamos com a postergação infinita que cabe dentro de um marcador de páginas favoritas, ao qual sempre podemos recorrer. Sobra um pouco de angústia ou de ansiedade.
Se eu fosse me analisar, diria que sou muito mais apegada ao passado e à memória do que poderia ser considerado inteligente. Sim, porque meu apego me faz sofrer quando penso nas coisas – ou melhor, nos sentimentos ligados às coisas – que eu perdi, seja como tenha sido. Por outro lado, o que mantém esta minha forma de ser é justamente o prazer que existe quando manuseio os traços do meu passado, das minhas memórias – não é, afinal, isso que verdadeiramente importa? Bem, há os que discordarão, fortuitamente. São pessoas que vivem mais ligadas ao presente, que sabem deixar o passado pra lá e viver o agora e o amanhã. Possuem essa característica que admiro e às vezes até invejo, e que já busquei em mim. Mas eu não sou assim, desprendida. Sou agarrada. A memória é o meu chão.
De uns tempos pra cá pessoas que haviam absolutamente sumido da minha vida voltaram a fazer parte dela de uma maneira muito presente, através da internet. De fato, com algumas, foi possível manter, ou estabelecer, ou reestabelecer, um certo contato digno de notação. Esses posso contar nos dedos de uma das mãos. Por algum motivo, a comunicação à distância com essas pessoas nos possibilitou nos relacionarmos verdadeiramente – ou melhor, suficientemente, na medida em que é possível se relacionar da forma como temos feito desde que as redes sociais surgiram, lá no início dos anos 2000.
Hoje já existem outras mil formas de nos comunicarmos via internet, e as pessoas vão aos poucos conhecendo e fazendo uso dessas ferramentas como melhor lhes aprouver. As pessoas se comunicam, se falam, contam suas histórias, partilham seus segredos. Uns se expõem a um nível que beira o perigo ou o ridículo, outros se preservam, observando e julgando. Mas acho que poucos se relacionam. Manter amizades de forma mais virtual do que presencial nos empobrece de várias formas, e isso porque acreditamos que escrever nossos pensamentos imediatos ou estar sempre a declarar alguma coisa nos torna mais próximos dos outros. As pessoas pensam que se comunicar é se pronunciar, mas com a escrita no computador perdemos o olhar, o toque, o cheiro, o som do tom de voz, o gaguejo, a dúvida, o sorriso no canto escondido, a mão nervosa no cabelo. Não ouvimos o timbre nem percebemos o drama. Todos falam ao mesmo tempo, ninguém ouve o que o outro tem a dizer. Se lhe fazem uma pergunta, será que é por que se importam ou por que estão apenas curiosos? Será que buscam fazer uma comparação para averiguar a situação da própria vida relativamente à dos outros?
Todos fazem isso, de uma maneira ou de outra. Mas a realidade virtual é bem mais nebulosa: ela é construída, pensada, mesmo que de forma pueril, mesmo que com indiretas ou frases de efeito, mesmo que com desabafos raivosos. Mostramos aquilo que queremos mostrar, seja o que for aquilo que nos impulsiona: promoção pessoal ou desamor próprio. Cada um tem a neurose que lhe cabe. Não é que alguém nos perguntou algo. Aquele que pergunta "Em que você está pensando?" não é um alguém que se importa: é uma máquina que lhe dá uma desculpa para escrever.
(Pelo menos as pessoas têm escrito mais. E lido mais. Não é?)
Não sei.
As pessoas vão a psicólogos, psiquiatras e terapeutas porque precisam antes falar ou serem ouvidas? 
Necessitamos da compreensão dos que nos são caros. Mas, quem de fato está disposto a ouvir, ou a ler o que se tem a dizer, quando há tanto para ler e ouvir e ver e perceber e compreender? A urgência em falar acomete a todos de uma vez: vêm as opiniões e os conselhos que você não pediu pra receber. As pessoas lhe perguntam, mas, no fundo, elas não querem saber verdadeiramente. Não lhes interessa de fato que você fale o que viveu, pensou e sentiu, a aproximação não é genuína quando há simplesmente uma vontade de saciar aquele algo mal resolvido que existe lá dentro de não sei onde.
As pessoas têm pagado seus terapeutas por que lhes falta quem lhes ouça de olhos fechados, quem se interesse. Talvez existam uma ou duas pessoas em todo o mundo com quem posso realmente conversar com mais frequência sobre meus pensamentos e reflexões. E eu entendo isso. Primeiramente porque não sou assim uma pessoa tão interessante, que tem tanto para ensinar, como os sujeitos do primeiro parágrafo. Não é fácil ser amigo de alguém, é preciso que haja um desinteresse egoísta muito grande para que isso aconteça de forma válida. E as amizades também têm suas fases.
Talvez a grande diferença entre os casais e os amigos seja mesmo essa: quando estamos tendo um problema com um amigo ou amiga, podemos nos afastar temporariamente sem maiores problemas ou dramas. Já os casais geralmente vivem as tensões de maneira mais catastrófica – dá certo ou não dá? Porque se for, tem que ser agora. E tem que dar certo sempre. Se uma pessoa fica casada com a outra por 15 anos, mas se separam, muitos vão lhe dizer que é uma pena que não tenha dado certo. Quinze anos juntos e não deu certo? É uma perspectiva que desmerece toda uma história e um passado. Digamos que deu certo por 13, 14 anos, e que lá pelas tantas, já não deu mais. Se isso não for considerado, a vida perde o pouco do sentido que tem.
Que triste ilusão a hipocrisia nos fornece dos relacionamentos humanos. Fica a pergunta a martelar: o que são amizades “de verdade”? O que é um relacionamento “de verdade”? O que é um interesse “de verdade”? Espero viver o suficiente para um dia tentar responder a isso.


9 de agosto de 2013

Minha religião


"Quando eu fui embora - porque eu que fui embora - eu estava tão triste que não podia mais chorar. E fui olhando pra trás até onde alcançava a vista, e mesmo depois que já não alcançava nada eu continuei a olhar pra trás e a me lamentar. De fato, eu estou olhando pra trás até agora, separada de você por um monte de fitas que dividem o corredor como um labirinto. Meus olhos estão ardendo, de ontem, e eu tento perceber se as pessoas ao redor estão felizes ou tristes como eu. Ouço o meu sotaque em outras bocas, e percebo que a partir dali eu já não estava mais lá. Não seria preciso esperar as nove horas para chegar. A minha viagem chegara ao fim, e eu voltava mais por medo do que por vontade de voltar.

Eu, quando li que as pessoas demoravam até seis meses para se adaptar de volta, achei que era um exagero, mas coloquei para mim esta meta. Achava que até lá já não haveria mais mapa nenhum entre nós. Triplicaram em minha cabeça os fios brancos que antes passavam despercebidos, mas que agora são como um chamariz que permito existir para me lembrar de que se passaram quase nove meses que eu não te vejo, não te toco e não te amo.

Depois de três meses passados com o rosto sempre molhado da cachoeira salgada, que, impertinente, brotava a qualquer hora do dia, em qualquer canto do mundo, eu me achei muito esperta quando desmanchei os porta-retratos e guardei as lembranças no fundo do armário e da alma. Evitei tudo o que me lembrava você, para que eu pudesse continuar a viver, e não a lamentar o vivido e o passado.

Que ingênua.

Para me preservar eu nos destruí dentro de mim. Quase tomei raiva de você. Inventei motivos para brigar e assim não ter que sentir essa maldita saudade tão opressora e triste. Eu brilhei, brilhei até demais. Quando olhei para dentro, estava tudo opaco. Eu havia destruído o amor do cacto, porque mesmo ele precisava de uma lágrima de vez em quando, para humedecer tão humildes raízes.

É poesia ou é prosa? Mas Gandhi disse que Deus não tem religião. Nem eu.

A minha religião era você. Você era meu pequeno-almoço, meu lanche e meu jantar. Você era o meu abraço e o meu beijo, a minha valsa solitária, a minha banana com granola e mel. Você era a minha religiosidade. Eu te praticava todos os dias, e ainda assim não me cansava. Você era meu travesseiro e minha calma.

Agora tudo mudou.

Toca uma música. Ela entrou por um ouvido, estourou os meus tímpanos e eu enxerguei a verdade. Não adianta fingir. Eu vou precisar me apaixonar de novo por você.

Eu preciso saber:

ainda assim, você vem?"

1 de julho de 2013

Nossinhora!


A história dessa imagem veio de uma fotografia feita em Brasília, em junho, num dos protestos que aconteceu aqui na capitar. Er um cartaz que dizia: "Arr maria, pode nem protestar!". Achei o cúmulo do engraçado e descrevi a foto para algumas pessoas. 
Uma amiga me avisou que essa história de "arr maria" é coisa do Bode Gaiato, personagem fictício que existe no Facebook e faz troça de tudo, com sotaque bem paraibano! 
Já o desenho da jovem pedalando também não é de minha autoria, mas de Karl Addison, que tem várias ilustrações muito legais de bicicletas e de mil outras coisas.
O restante da imagem fui eu que fiz no Photoshop. 
Me divirto muito fazendo essas coisas!

28 de junho de 2013

Campanha «Respeite as Ciclovias»

Você, jovem, criança, adulto ou velhinho que anda com a sua bicicleta pelas recém-inauguradas ciclovias do Plano Piloto do DF, já deve ter notado que ainda há muita gente que não sabe o que é ciclovia, nem sabe que, muito além de ser um espaço para bicicletas, patins e skates, e mesmo pedestres desavisados, a ciclovia é um espaço de cidadania.

Cansada de ver carros estacionados em cima da ciclovia, ou impedindo a passagem nos cruzamentos, ou mesmo impedindo parcialmente alguma faixa com a frente ou a traseira do carro, comecei a distribuir esses pequenos folhetos, como se fossem post-its, nas janelas dos carros mal-educados.

Se você já viu esse recado no seu carro, é porque fez besteira!


Para que a ideia se espalhe e mais pessoas possam dar a multa cidadã - já que o Detran-DF até hoje não iniciou a prometida campanha educativa no trânsito - disponibilizo aqui a imagem para impressão.

São duas imagens disponíveis, em tamanho A4, com 6 post-its cada.  Na que tem o fundo transparente o fundo da imagem será da cor do papel que você escolher. Pode ser amarela, rosa, azul, vermelho, e você só paga a impressão em preto-e-branco. Para baixar a versão com fundo transparente, clique aqui.

A imagem amarela, ao contrário, deverá sem impressa a cores para que o amarelo fique visível. Portanto, aconselho que se compre uma resma de papel colorido e imprimam a preto-e-branco, pois assim ficará bem mais barato! Para baixar a versão com fundo amarelo (impressão colorida), clique aqui.

Boa pedalada!

21 de junho de 2013

Molotolove

Preciso me lembrar de escrever meu relato e minhas impressões do levante brasileiro. Por enquanto, fica aqui um exemplar da minha manifestação gráfica de Junho de 2013.

11 de março de 2013

Eu acredito no amor

À medida que eu comecei a pedalar por Brasília os motivos só foram aumentando. Eu sempre gostei de bicicleta e patins, desde criança. Quando morava em Goiânia e estudava no Pré-Médico, com uns 14, 15 anos, eu tentei algumas vezes pedalar até a escola, mas fui poucas vezes porque a subida era difícil, eu não tinha muita força no pedal, a bicicleta não era das melhores e eu morria de medo de ser atropelada (mesmo andando na calçada).

Mas a «planitude» de Brasília sempre me convocou a pedalar, e apesar de ter demorado mais do que o desejável para adquirir uma bicicleta, um belo dia uma magrela preta e amarela (carinhosamente chamada de Magali, em homenagem à personagem do Maurício de Souza) passou a fazer parte da minha vida. De lá pra cá contam-se 5 anos de pedaladas, 1 atropelamento e 3 quedas, e muitos, muitos bons momentos e vários amigos que fiz na Bicicletada.

Aos poucos, a gente começa a pedalar não só para ir de um ponto a outro. Começa a pedalar porque sente que aos poucos o corpo se fortalece, o humor e a disposição melhoram, e a cidade passa a ser outra, mais próxima, mais humana. Pedalamos porque o dia está lindo e é delicioso suar enquanto o vento refresca sua nuca. Pedalamos porque assim vai-se mais rápido, mas ainda podemos sentir o cheiro da dama-da-noite. Pedalamos porque acreditamos na legitimidade deste modal de transporte. Pedalamos porque de vez em quando conseguimos sorrir pra alguém na rua, a troco de nada. Pedalamos porque as crianças ficam curiosas ao ver a bicicleta, e porque isso desperta nelas a vontade de pedalar. E se a sua bicicleta tem flores, você sempre pode se desfazer de algumas para alegrar o dia de alguém. 

Então depois de alguns sustos na rua, buzinadas indevidas, ultrapassagens perigosas e um ou outro «acidente», você começa a pedalar porque às vezes sente medo e pensa em desistir, e por isso mesmo é preciso vencer o medo que o mundo quer colocar em você.

São tantos os atropelamentos de ciclistas que a cada dia mais eu pedalo por teimosia. Um dia foi o ciclista sem nome atropelado pelo bilionário wanna be. Outro dia foram duas ativistas atropeladas em São Paulo. Um dia em Brasília. Outro dia em Belo Horizonte. Ontem, mais um em São Paulo, esse com requintes de crueldade difíceis de suportar sem algumas lágrimas e muita dor no coração.

Ciclovias têm sido construídas em toda a região do Plano Piloto de Brasília, mas na Estrutural, na EPTG, nas grandes vias de 6 faixas para carros, recentemente reestruturadas, não há espaço para ciclovias, apesar das condições impostas pelo BNDES (a existência de ciclovias era uma condição sine qua non para o empréstimo dos recursos). E é lá que há o maior uso de bicicletas como meio de transporte (ao contrário do que ocorre no Plano Piloto, onde a maioria das pessoas ainda pedala como forma de lazer ou esporte, isto é, pedala esporadicamente). Então por aí nós vemos qual é a real preocupação do governo, que é ornamentar o Plano Piloto com ciclovias caríssimas, mas que até hoje não foram finalizadas: não há sinalização, não há placas e, principalmente, não há faixas pintadas nos cruzamentos da ciclovia com o asfalto nas rotatórias. E onde há, a preferência, contrariando o CTB, é dado aos carros, e não às bicicletas. Até onde eu sei, o Detran-DF recusa-se a pintar os cruzamentos porque não quer ser responsabilizado pelo atropelamento de ciclistas provocados por motoristas que se recusarão a dar-lhes a preferência. Eu não consigo acreditar que o órgão regulamentador do trânsito use essa desculpa esfarrapada para se isentar de tomar uma providência frente à nova realidade, e cumprir seu papel educador.



O outro problema é que agora, com as ciclovias, muitos motoristas acreditam que o ciclista perde o seu direito de circular no mesmo espaço que eles, na rua asfaltada. Do alto de sua arrogância e egoísmo, pensam que têm mais direitos do que os outros veículos, aproveitando-se de sua óbvia força assassina para amedrontar os ciclistas, que circulam «nus», sem uma caixa de metal que os proteja.

De vez em quando um ou outro motorista educado aparece e faz uma gentileza, mas para cada um que é bom, há outros nove que são simplesmente cretinos. E tudo isso às vezes me tira o ânimo de pedalar, mas eu vou persistir, eu não vou desistir. Não vou ter medo, não vou deixar que me quebrem o espírito. 

Quantos de nós terão que morrer para que a sociedade brasileira se aperceba de seu anacronismo, e passe a exigir como um todo pela melhoria do transporte coletivo? Menos carros, menos motor. Mais bicicletas, mais amor. 


18 de fevereiro de 2013

A velhice e a vida

Eu pensava que ficar velha era ver nascer os primeiros fios de cabelo brancos. Mas eu estava errada. Então pensei que parte do processo de envelhecimento era ver os amigos e amigas casando-se e procriando. Mas eu ainda estava errada. Percebi que estou sim envelhecendo, por todos esses motivos acima, mas agora me dou conta de que é a morte que acusa a velhice. A morte dos pais dos meus amigos. A morte dos meus pais, que eu sei que um dia virá, não obstante meu medo e minha tristeza. Agora sim eu vejo que estou mais velha, porque a morte se aproxima lentamente, comendo a vida pelas beiradas.

Eu quero comer a morte pelas beiradas.

Esta aquarela é de Maria Eugênia, desenhista que estásempre na revista  piauí.
Vá na fonte!

14 de janeiro de 2013

Back to Brazil

A saudade é um atestado tardio de felicidade.
Pra saudade que eu sinto não há cura, apenas memória.
A memória é prisão, e desapego é o contrário de desprendimento.
O tempo corre devagar pelas bandas de cá.
Eu olho pra dentro de mim quando fecho os olhos.

Eu vejo o topo da Basílica alaranjada pelo sol, vejo a linha de ferro do elétrico e ouço o barulho da sua campainha. Eu vejo o vaso de flores em cima da mesa, vejo a grade que cerca o jardim. Vejo o estendal da vizinha e as roupas brancas penduradas.
Vejo você dentro de mim - vejo-nos com as vistas embaçadas.

«Toda lágrima é uma cachoeira» de saudade.







27 de outubro de 2012

Sobre unhas

Durantes as últimas semanas, fiquei a desejar em alguns quesitos do cotidiano, tais como lavar o banheiro ou cortas as unhas dos pés. Também não empenhei em lavar o cabelo mais do que 3x por semana, enquanto dormia às 7h da manhã e acordava a 1h da tarde. Numa palavra, mestrado.

Durante a pausa para o cigarro, finda a limpeza do banheiro, resolvi escrever este texto sobre uma coisa que vem me incomodando mais do que a sujeira da pia: o comprimento das minhas unhas.

Tópicos sobre unhas não estariam no topo de uma lista de prioridades, caso eu tivesse uma. Simplesmente corto-as e lixo-as assim que crescem um pouco, quando começa a despontar para uma sombra sobre a carne do dedo. Às vezes pinto-as, às vezes não.

Acontece que agora que elas cresceram um pouco, e que não me dei ao trabalho de cortá-las, a sensação de manipular as coisas é diferente, de modo muito sutil, é claro, como convém. Faço um pouco mais de barulho quando digito, é o tec-tec das unhas compridas. É um certo não-tocar com a ponta dos dedos. Eu já há um tempo pensava em voltar a deixa-las crescer - pelo menos um pouco.

Da parte incômoda, o primeiro que me vem à cabeça é a quantidade de coisas que entram debaixo da unha - quando se vai mexer na carne moída, por exemplo, ou simplesmente sujeira mesmo, da boa e velha. Na hora de tomar banho e lavar as orelhas é terrível. Qualquer coçadinha inocente é como um desmatamento da epiderme. E me dá mania de coçar a cabeça até quase machucar.

A lista das vantagens é boa: unha grande é boa pra fazer ai-ai nas costas, bem suavemente. Melhor sonífero que há. É boa para remover etiquetas e catucar coisas miúdas. Protegeu-me já diversas vezes contra a serra da faca na manipulação de cebolas e afins. Pra catucar sujeira do ouvido é muit útil (é nojento, mas é verdade - não é preciso admitir que você também o faz, entretanto). Perceba que catucar a sujeira do ouvido é muito diferente de limpar as orelhas.

Enfim... vou cortá-las, as unhas, pelo menos um bocadinho.

(Digitar em pé não compensa).

23 de setembro de 2012

Travessia

«Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar. Estou só, e não resisto. Muito tenho pra falar».



Ano do Brasil em Portugal (e vice-versa)

Eu não ia dizer nada, mas não consigo tirar isso da minha cabeça, nem tirar esse aperto do peito, então eu vou ter que escrever um pouco, porque eu preciso desabafar.

Começou ontem, oficialmente, o Ano do Brasil em Portugal. Fizeram lá no Terreiro do Paço, se não me engano, umas cenas comemorativas, e coisa e tal. Ontem também foi o dia do Equinócio - começa a primavera no hemisfério sul, e aqui no norte, o outono. Outra coisa importante ontem foi o aniversário da minha mãe, para quem comprei girassóis, assim mesmo à distância, «with a little help from a (cousin) friend». Também foi aniversário de um amigo meu ontem, natural do Porto. Ele dá aulas na Covilhã, e depois de ter passado uns filmes num projeto que ele criou lá na cidade, nós fomos ficando amigos. Em agosto, ele se mudou pra Lisboa, e foi morar numa república de amigos meus, o que me deixou muito feliz, porque agora ele é amigo dos meus amigos também.

Esta é uma república de estudantes, como são quase todas as repúblicas, acho eu. Por lá já passaram brasileiros, italianos, finlandeses, romenos, mas nunca antes tinha lá morado um português. Ele é o primeiro, e foi indicado por mim,que por acaso do destino, nasci no Brasil, sou brasileira. Ontem de manhã recebi uma mensagem desse meu amigo portense, me convidado para seu jantar de aniversário. Cheguei um pouco atrasada, porque fiquei no skype com minha mãe e minhas primas, e meu sobrinho-primo que nasceu há 17 dias. O jantar ainda não estava servido. Estavam lá minha amiga querida da Finlândia - uma das pessoas mais doces e gentis que já conheci - um casal de amigos dela, também da Finlândia, a madrinha do aniversariante, e um casal de amigos dele. Mais tarde, chegou mais um outro casal de amigos. Os rapazes eram naturais da Covilhã, onde eu morei e estudei por 6 meses.

Foi tudo muito bom, estava um clima muito legal no jantar, os aperitivos fartos e muito bem-feitos, conversas amenas, uma ou outra piada de descontração, etc. Fomos, eu e os finlandeses, ao ex-quarto do italiano que recém-partiu de volta pra Milão, com o fim do semestre escolar. Ficamos lá, fumando e falando de vegetarianismo e islamismo, dois assuntos muito polêmicos, rs rs. Quando voltamos pra cozinha, estavam lá os casais contando histórias da Covilhã.

A Covilhã é uma cidade muito pequena, que quase não se sobressai, e apenas tomou mais atenção do povo porque há 26 anos existe lá uma universidade pública, a UBI. Como todas as cidades pequenas, não acontece muita coisa por lá; as pessoas são, em geral, mais conservadoras tanto política como moralmente, e, como toda cidade do interior, pela falta de assunto, a vida alheia é a coisa mais interessante que pode haver. Estavam lá os dois rapazes da Covilhã falando da vida alheia, comentando que fulano saiu do armário, que o outro bebeu demais, que não viam a Fulana Cicrana há não sei quanto tempo, etc. As mulheres quase não falavam, enquanto que seus companheiros fofocavam alegremente. Pessoalmente, prefiro temas mais controversos, e que não envolvam a sexualidade alheia, que isso não é da minha conta. 

Por essa razão, o jantar estava basicamente dividido em dois grupos: o dos lusitanos, e o dos estrangeiros. No meio, o aniversariante, que ora conversava com um grupo, ora conversava com o outro. Lá pela meia-noite, senti muita vontade de ir embora, mas acabei ficando (o que me fez arrepender amargamente depois). Nessa altura, os lusitanos estavam sentados perto da janela, e nós perto da porta. Cada qual no seu assunto, cada qual na sua conversa. Eles então começaram a falar sobre o cinema brasileiro. Ouvia palavras esparsas. Um dos rapazes olhou pra trás, para ver se eu estava reparando na conversa deles. Notei o movimento, e olhei pra trás. Ele virou de costas. E assim foi. Do cinema pra cultura brasileira, foi um pulo. Então começaram a falar sobre a mulher brasileira. E sobre o homem. E sobre como as mulheres são vaidosas, oferecidas e que agarram os homens sem a menor vergonha. E como os homens são rudes e  mal-educados e agarram as mulheres. E como TODOS os brasileiros são assim-assim-assado. Brasileiros e brasileiras, frisou uma das raparigas. E que eles não têm educação. E mais uma série de ofensas ao povo brasileiro em geral, tomando muito cuidado de falar em uma altura ideal para que eu escutasse bem. De vez em quando, olhavam para trás para se certificar das minhas reações.

Agora, é a parte mais difícil, que é a de traduzir tudo que se passou dentro de mim, durante essa uma hora em que eles ficaram falando do alto de sua propriedade portuguesa como turistas em Salvador e no Rio de Janeiro, sobre a selvagem cultura brasileira. Primeiro, fiquei surpresa com a tranquilidade com que ofendiam o povo brasileiro na minha presença. Como bem disse o Ariano Suassuna, falar mal de uma pessoa na cara dela é muita falta de educação. Não estávamos num bar - estávamos na casa de um amigo em comum, no seu aniversário, e eu era tão convidada quanto eles. Fui ficando com antipatia daquele bando de provincianos. Ainda não compreendo como o meu amigo tem amizade com um povo com a cabeça tão pequena.

O que me dá mais raiva, na verdade, é como atitudes racistas como essas infectam meu estado de espírito quase como uma doença na alma. Ainda estou, como é óbvio, muito perturbada com a atitude deles. O casal de finlandeses anunciou sua partida. Eu talvez iria dormir lá, mas isso significava ter que continuar ali ouvindo ofensas contra o Brasil. Então fui embora também. No caminho, fui pega pela maior tempestade que já enfrentei, fiquei completamente encharcada, andei que nem uma condenada, e por pouco não fiquei doente. Dormi mal, acordei mal-humorada e com ressentimentos de todos os portugueses do mundo. É isso que me deixa mais chateada - como o ranço negativo de algumas pessoas faz com que eu sinta raiva de tudo, que me arrependa de ter vindo pra cá, que fique eu mesma com pensamento racistas - todos os portugueses são uns infelizes, mal-humorados, mal-educados, racistas e invejosos, sem amor-próprio, etc. Que raiva por me deixar contaminar por esses imbecis. Que raiva por não ter feito nada - mas, fazer o que? Bater boca com gente ignorante não adianta muita coisa. Se eles não têm educação, nem consideração pelo próprio amigo aniversariante, deliberadamente ofendendo uma de suas convidadas, eu é que ia não descer ao nível deles, e estragar o jantar para todo mundo.

E não deixa de ser notável que nesta república, que sempre abrigou estrangeiros, eu nunca tenha passado nenhum momento constrangedor por ser da nacionalidade que sou, muito pelo contrário. Sempre fui muito bem-recebida por lá, conheci pessoas de vários lugares do mundo neste apartamento, todos sempre muito gentis uns com os outros, e os habitantes da casa sempre muito contentes desse espaço multicultural. É uma pena que isso tenha mudado justamente com a presença dos portugueses.

Para não me deixar afetar pelo racismo dessas pessoas, eu faço uma lista mental das boas pessoas que eu conheci aqui, com quem fiz amizade, mesmo que passageiras - eu me esforço para lembrar daqueles portugueses que foram gentis comigo na loja, na rua, etc. Lembro do Fernando Pessoa e do José Saramago. Tento me lembrar das coisas bonitas de Portugal, e dos momentos felizes que eu passei aqui. Eu não quero reforçar os estereótipos, não quero agir nem pensar como essas pessoas.

Então eu me deparei com dois trabalhos científicos sobre o racismo em Portugal - são enormes, vai demorar um pouco até que eu possa ler. Num desses trabalhos, já nas primeiras páginas, encontro um link: «Um exemplo hilariante de jogo com os lugares-comuns da comunicação social e com os estereótipos sobre os muçulmanos resultantes do desconhecimento é o sketch do Gato Fedorento».


Então esta é a minha vingancinha contra os racistinhas de ontem à noite, este vídeo que ridiculariza o tipo racista, ignorante e inútil que infelizmente existe em qualquer lugar do mundo. O engraçado mesmo é como o preconceito que existe aqui contra os árabes e outros povos do Oriente Médio me leva a crer que o pessoal não tem espelho em casa, porque no sul de Portugal o que tem de gente com cara de árabe, com os olhos grandes, os cabelos bem pretos e grossos, a barba cerrada, a pele morena, o nariz grande... mas eles são muito ignorantes para saber que tais características físicas vêm do sangue dos mouros que invadiram Portugal no século 14. Eles têm preconceitos contra si próprios. Que falta faz uma boa educação!

Seguem os links dessas duas pesquisas sobre o racismo em Portugal.


18 de setembro de 2012

Hipocrisia 1 x 0 Seios

Acabo de ler uma entrevista com uma ex-participante do Femen Brasil, que é o braço verde-amarelo do Femen Ucrânia. Esta moça, chamada Bruna Themis, colocou a boca no trambone e criticou duramente a «líder» do movimento, Sara Winter. Basicamente, a tal Sara, que tem sido e acontecido no Brasil e afora, é simpatizante do neo-nazismo, admira o bigodinho do Hitler e sua alcunha é a mesma de uma espiã inglesa nazista. Para além disso, Thamis criticou o movimento no Brasil por sua ausência de posicionamento político, sua relação mal-assumida com um partido político de um «assessor voluntário» que é atual candidato a vereador, e pela falta de embasamento teórico e conceitual do movimento. São acusações graves que certamente vão tirar muito a força do Femen Brazil e de sua líder-linda-e-loira-pintada-que-se-veste-de-pin-up. Para ler na íntegra, clique aqui.

Que pena. A coisa toda mal começou e já vai pelo ralo, e vai servir de prato cheio às ânsias devoradoras dos anti-feministas e dos machistas de plantão, sempre prontos a desmoralizar qualquer ato advindo de mulheres que vise adulterar a realidade machista do país das bundas. 

Então vamos falar de moralismo. 

Mostrar a bunda na TV? Pode.
Mostrar mulheres de biquíni rebolando no Pânico na TV? Pode.
Dançar seminua no Carnaval? Pode.
(Lembrando o contexto da mulher-objeto, etc., etc., não vou falar muito senão serei chamada de feminazi).

Mostrar os peitos em frente à embaixada da Rússia pode? Não pode (também não pode jogar lata de tinta na frente da embaixada, oras, é claro que não).

Mostrar os peitos dá cadeia, oras!! Menos no carnaval (na praia também não pode).

Exemplos:


Pode.


Não pode.


Pode.


Não pode.


Pode.


Não pode.



 Pode.


 Não pode.

12 de setembro de 2012

Como bem definiu o Philipp, hoje é um daqueles dias em que a dor do mundo dói dentro da gente.


9 de setembro de 2012

Cavalheiros e Damas

É um drama, eu sei, um grande, eloquente e, geralmente, pouco prolífico drama a questão do feminismo. Por causa da ala radical feminista, que muitas vezes é misândrica, isto é, abomina o sexo masculino, grande parte de todo o movimento acaba sendo taxado de radical e inútil por aqueles que querem diminuir os apelos feministas contemporâneos.

Antigamente, e nem tão antigamente assim, as mulheres tinham muito pouca liberdade: elas não podiam votar, não podiam assinar contratos, não podiam receber herança, e não podiam trabalhar em cargos de grande responsabilidade. Eram poucas as que podiam ir à universidade, e se elas não conseguissem se casar, estavam fadadas a uma vida miserável e infeliz de humilhações constantes. Não havia outro sentido na vida das mulheres que o de casar-se e procriar.

Hoje em dia, ao menos no mundo ocidental, por assim dizer (em partes da Ásia também, é claro, e na Oceania) já não são esses os problemas enfrentados pelos seres humanos do sexo feminino. Porque hoje vivemos num mundo «politicamente correto», as antigas concepções de vida resistem sob a forma da hipocrisia. Não podendo dizer o que realmente pensam, as pessoas seguem simplesmente sendo hipócritas, pois não querem ser taxadas de racistas, nem de homofóbicas, nem de antiquadas, etc. Eu, que não sou perfeita, também tenho lá minhas crises éticas, às vezes julgo as pessoas por coisas que eu talvez não deveria, às vezes também faço a patrulha ideológica em cima dos outros. 

O lugar onde há mais patrulha ideológica que eu conheço é o amado & odiado Facebook, o blogue coletivo da atualidade. Se os seus amigos são gente boa, se você sabe manejar mais ou menos as ferramentas do site, consegue manter até um nível razoável de interesse nesse «blogue». Eu, por exemplo, tomei uma tarde para eliminar pessoas com as quais eu não mantinha contato, e as que ficaram foram rigorosamente separadas em categorias. Sim, soa horrível, mas eu tive que fazer isso. Separei as pessoas em listas - Amigos, Melhores Amigos, Família, Institucionais e Restritos (que não veem nada do que eu publico, a não ser que eu torne público, o que eu nunca faço). Na última lista tem umas 300 pessoas. Meus álbuns de fotografias, a grande maioria estavam, até ontem, restritos aos Melhores Amigos (das quais a metade é minha família). Ontem eu coloquei-os disponíveis só para mim.

É uma situação contraditória, afinal, se eu quisesse realmente proteger minha privacidade, sequer teria aberto uma conta no site (nem tampouco um blogue). Ou então não publicaria tantas coisas lá - mesmo que não sejam pessoais, em sua maioria, não deixam de revelar muito sobre o que eu penso, minhas preocupações, minhas preferências, minhas inclinações políticas, etc. E mesmo que eu jamais publicasse absolutamente nada de cunho pessoal (o que de vez em quando eu acabo fazendo), quando vou dar pitaco nas publicações dos meus amigos, eu também estou revelando um pouco - ou até muito - de mim.

Esses dias, por exemplo, um amigo compartilhou uma imagem. Era um printscreen de uma declaração de fulano chamado Arbustus, que usa uma foto do personagem Travis Bickle (Robert De Niro), de «Taxi Driver» (1976). 


Robert De Niro de moicano, na pele do icônico personagem que lhe garantiu muitos fãs e uma indicação ao Oscar, mas que não era muito cavalheiro

A declaração dizia assim: «Cavalheirismo é o nome que as mulheres dão à parte do machismo que lhes é conveniente». É claro que «mandei a boca» ao meu amigo, como dizem os portugueses. Achei a frase tão estúpida que acabei colocando meu ponto de vista de forma irônica e rude: «uau, isso é que eu chamo de distorcer um conceito! parabéns por compartilhar essa idiotice!». Meu amigo ficou com preguiça do meu comentário («zzzzzzzzzzzzz») e depois disse, numa clara alusão à Marcha das Vadias, que iria fazer uma marcha pelo direito de expressar o que pensa sem ser oprimido pelos próprios amigos. 

Mesmo que eu tivesse sido mais polida, mais refinada, o fato de eu discordar da frase também seria considerado como «opressão» ou, melhor dizendo, «repressão». Mas isso acontece porque no Facebook só se pode concordar. Ou «curtir». Não existe a opção «não curtir». Ou você ignora o assunto, ou prepara os dedinhos para um duelo escrito, numa plataforma que não favorece o debate, pois que só favorece o ego. E foi isso que eu disse a ele (que lá só podemos concordar) e desejei-lhe boa sorte na marcha, torcendo para que em seu caminho exista uma mão dupla de liberdade de expressão (o meu direito de discordar).

N'outro dia um outro amigo veio conversar comigo em modo privado, por mensagens, a respeito do meu texto «Feminismo é o contrário de machismo?». Ele começou dizendo que já não tem mais esse tipo de discussão porque é sempre muito desgastante e não leva a nada. Ele faz parte da ala que tem ojeriza ao termo «feminismo», acredito eu por causa da misandria. Mas, «porque é você», ele topou debater. De todas as coisas que ele me disse, o que mais ficou marcado em mim foi sua revolta pelo comportamento sexual digamos, predatório, das meninas de hoje em dia. Que ela ficam, beijam e transam por uma noite, e não querem mais saber. Ele acha que é ridículo as mulheres se comportarem como os homens sempre se comportaram.


Essa senhora tem todos os naipes, mas as más línguas dizem que ela não é uma dama

Do ponto de vista histórico, tendo em vista séculos de repressão à sexualidade feminina, acho uma maravilha que as mulheres façam isso e não sejam mortas à pedrada em praça pública. Do meu ponto de vista pessoal, não acho que a emancipação feminina virá com noitadas e noitadas de transas inconsequentes. As pessoas sobrevalorizam o sexo, e isso é um saco. Tem muitos adolescentes cuja consistência mental é mais mole do que a minha famosa conserva de berinjela. Eles/elas acham que são muito rebeldes em sair transando com todo mundo, e usando-se uns aos outros como objetos/produtos sexuais. Não acredito que exista apenas uma forma de amar ou de exercer a sua sexualidade, mas também não acredito que a molecada saiba o que está fazendo, se seu comportamento não é apenas reflexo de uma lavagem cerebral que sexualiza a tudo e a todos (até as frutas). Por fim, ele disse: «Não existem mais homens cavalheiros porque não existem damas».


Damas do século 19

Como as do século 19, bem, acho que não existem mesmo. Ainda bem. Todos os paradigmas mudaram. E o conceito de mulher «ou santa ou puta» já deu muita dor de cabeça pra mulherada, desde os tempos de Jesus Cristo. Eu conheço duas mulheres que são o oposto uma da outra no que concerne à sexualidade: uma casou com o primeiro namorado, com quem perdeu a virginidade; e a outra «deu mais que chuchu na serra». Ambas fizeram o que queriam, o que sentiam vontade de fazer. Hoje em dia, uma virou mãe. E a outra sossegou lá com o seu namorado. Ambas são pessoas fantásticas, inteligentes, engraçadas, guerreiras e merecedoras de igual respeito. Corações foram partidos? Sim, em ambos os casos, por ambas as partes. Mas elas sobreviveram bem. São duas damas, e merecem ser respeitadas a despeito do tratamento que elas dão à própria vagina. Ser uma dama deveria estar além disso. Ou, ainda, se todas as mulheres devem ser damas, então os homens deveriam ser todos cavalheiros.

 
Duas damas de comportamentos opostos, mas que têm meu respeito do mesmo jeito

E cavalheirismo não é machismo, pois senão o «damismo» seria feminismo, e o feminismo certamente não se ocupa de dar aulas de etiquetas para as meninas. Cavalheirismo, lá em último lugar, tem relação com o tratamento que um homem dá a uma mulher. É, muito antes disso, uma relação do homem para com o mundo, seja de qual sexo (ou até mesmo espécie) for a pessoa. Para encerrar o assunto, acho que esta imagem explica bem o conceito do que é ser um cavalheiro. 

Clique para ver em tamanho maior


Talvez ainda precisemos pensar e definir o que seria uma dama no século 21. Afinal, qual é a dama ideal?



 
Duas damas-de-ferro. A primeira, também conhecida pelo gracioso nome de «Virgem de Nuremberg», era um método de tortura medieval. A Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher  também recebeu a alcunha de dama-de-ferro, mas não sabemos se ela era virgem, santa ou puta

  
A personagem «Dama», da animação da Disney «A Dama e o Vagabundo», e o jogo de damas, um dos meus preferidos


Damas de todos os naipes, para todos os gostos

4 de setembro de 2012

Orçamento Participativo

Se nas escolas do Brasil fosse obrigatório o ensino de Controle Financeiro, acho que muitos brasileiros não teriam entrado no buraco sem fundo das dívidas. Algumas pessoas têm o dom supremo de serem controladas com o seu dinheiro, o que infelizmente não é o meu caso. Não que eu seja completamente desvairada no assunto, mas isso só acontece porque eu sou pão-dura que dói.

Morando no exterior, a maneira mais prática e barata que eu arranjei de lidar com o dinheiro foi arrumar o tal cartão Visa Travel Money, mas para cada saque que eu faço, pago 2,50€, cerca de 6 reais. É muito, pois só posso sacar no máximo 200€ por vez. Ou seja, para cada mil euros que eu saco, pago 12,50€, cerca de 30 reais. Não é assim um descalabro total, mas dá aquela raivinha, afinal, bancos e operadoras de cartão são a institucionalização da sacanagem.

Minha ídola, Malu, é dessas pessoas que têm o dom do controle financeiro. Mesmo com pouco, ela vive bem, consegue se divertir, poupar e até investir. Isso acontece por dois motivos: ela não é consumista, nem vaidosa além da conta; e toda semana, ou toda quinzena, ela senta na frente do computador com o extrato do cartão e os recibos de compra e coloca tudo numa planilha. Ela sabe exatamente como gasta cada centavo do seu dinheiro, e faz todas as operações de pagamento, poupança e investimento logo que recebe seu salário. Assim, ela vive com o que sobra, e tá-se bem assim.

Hoje ela me mandou a sua planilha. Fiquei horas olhando pr'aquilo e entrando em depressão. Fui buscar os meus recibos e chafurdar na lama da minha memória em busca de explicações para o meu caos financeiro. Passei o dia todo nesse processo, e ao fim do dia fiquei feliz porque tinha zerado a contabilidade. Só que, como nada é perfeito, e muito menos a minha matemática, acabei por perceber que não, havia um «buraco» de 91 euros na conta. Inútil lutar contra o esquecimento. Criei o item «Desconhecido» e taquei lá essa diferença absurda. A calculadora sorriu para mim e eu passei pro mês de Setembro.

Não sei se a coisa toda ficou completamente correta. Vamos ver se ao longo do mês eu consigo manter a dignidade do meu orçamento semanalmente. Apesar de ser mais da área de Humanas, de gostar de escrever, de ter preferido as aulas de História e Geografia às de Matemática, eu confesso que, no fundo de minha alma taurina, gosto dos números, gosto da tal Matemática Financeira. Gosto de ver quando a conta bate, quando os números se subtraem, somam-se e completam-se numa aritmética perfeita.

O meu pai e todos os meus irmãos trabalham na área da Contabilidade, e quando eu tinha 13 anos trabalhei pela primeira vez com o meu pai, no seu escritório, e era responsável por checar se as contas dos inventários batiam. Geralmente, quase não havia problema. Era um trabalho meticuloso e de calculadora. De vez em quando a conta não batia, então eu ia até um funcionário mais experiente e a gente tentava descobrir o que estava errado. Essa era a parte que eu mais gostava, porque era emocionante, e eu me sentia útil.

Bons tempos aqueles. Aprendi muito, e apesar de não ter trabalhado muito tempo com meu pai, o pouco que aprendi me foi muito útil quando eu fiz meu primeiro filme, «Cadê a Véia?», lá em 2006, aos 21 anos (quase 22), com um financiamento do governo do Estado de Goiás. Contratei um amigo meu para ser o produtor executivo, e ele me deu o cano. Acabei tendo eu mesma que fazer a prestação de contas. E eu consegui, ficou tudo certinho e lindo. Não sei se fizeram auditoria do processo, porque a Agepel (Agência Goiana de Cultura) era uma zorra, uma vergonha pública, mas sei que já se foram 6 anos e nunca me convocaram para explicar qualquer mal-entendido numérico.

Enfim, posto isto, amanhã vou comprar um pequeno bloco de notas e vou andar com ele e com um lápis na bolsa, e vou anotar tudo, tudinho que eu gastar que não venha com recibo. E vou cuidar de guardar os recibos n'algum lugar seguro, diligentemente. E todo domingo ou segunda (ainda não decidi) vou sentar, como Malu, na frente do computador, e organizar a minha vida.

3 de setembro de 2012

Mosquitos

«É preciso ficar calma», pensou ela enquanto bebia a taça de vinho branco e tentava encontrar o isqueiro. Respirou fundo e rangeu os dentes levemente, enquanto os olhos se fechavam para o mundo e se abriam para o pensamento. «Perdi de novo».

O mundo pegando fogo ao lado da igreja, Portugal inteiro em chamas, e ela só se preocupava com duas coisas: o machucado entre os dedos dos pés e a degradação lenta e contínua do seu relacionamento com o ser amado. Mas que ideia idiota essa de se casar, de morar junto. Isso só serve mesmo para tirar ideias para roteiros de filmes de amor que acabam em tragédia. Ela já havia bolado uns tantos quantos. O último tinha até nome, «Mosquito». Mais um curta para entrar na gaveta - o que seria uma pena, já que esse era mesmo bom, tinha tudo para ganhar uns 40 mil reais em algum edital público. Ainda não entendia porque o governo deve pagar a terapia dos cineastas, que é fazer um filme das suas neuroses, mas, enfim, «quem sabe sobre um pedaço do bolo pra mim?». De todo modo, já estava de regime há um bom tempo.

«Vai abrir o vinho?».
«Não. Faz mal pra mim tomar vinho todos os dias».

Não é o que os médicos da Super Interessante dizem. Uma taça por dia ajuda o coração a bater melhor, quiçá ajuda até a curar mal de amor. «Mas eu não tomei vinho ontem. Egoísta». Se fosse ele outro, diria-lhe que abrisse o vinho e tomasse lá a sua taça, sozinha, enquanto fumava um cigarro com a mão para fora da janela e a boca torta, inutilmente soprando a fumaça pra longe, que essa teimava em voltar pra dentro devido à corrente de ar.

O verão tem duas utilidades hoje em dia na Europa: promover trabalho temporário para os 11 milhões de desempregados da Espanha e manter a cadeia alimentar baseada na existência e proliferação dos mosquitos. Durante o dia, sabe lá deus onde os malditos se metem, mas à noite eles vêm todos para o quarto, e como são uns mosquitos modernos, possivelmente com sua genética modificada, eles zunem ao redor dos ouvidos, mas percebem o movimento dos nossos olhos e se escondem na nuca, que ninguém tem olho nas costas (seria bom).

E porque numa certa noite eles não a deixaram dormir, mesmo depois de folheadas as páginas do «Memorial do Convento», e de fechados o livro e os olhos, ela acordou enfurecida e foi lá acertar as contas com o pobre coitado que dormia de livre e espontânea tristeza no sofá (já sequer lembrar porque é que ele lá foi parar). A geladeira nunca mais foi a mesma, arrancou-se todos os testemunhos da felicidade conjugal. «As flores secas são como nós», e pôs-se a destrui-las todas, numa cena digna de Almodóvar ou novela das oito (bons tempos aqueles). Ficou mesmo foi com dó do pé-de-feijão, que presenciou horrorizado o acalorado embate e murchou de tristeza e pena no outro dia.

Almoçaram feijoada, mas esqueceram de guardar uma unidade do grão para recomeçar a pequena horta, e quem sabe, tentar ser feliz de novo.

Feminismo é o oposto do machismo?

Antes que alguém me xingue, eu vou dizer que o título do texto é antes de tudo uma provocação, para chamar a atenção e quiçá conseguir que alguns olhares se detenham para ler o que eu escrevi. 

"É bom ter uma garota em casa".
Cresci em Goiânia, Goiás, um estado agropecuário, tradicionalista, conservador e com fama de machista. Mas eu sou filha da minha mãe, e graças aos livros e aos filmes que ela sempre me mostrou, eu consegui sair da caixinha, pelo menos um pouco, e ver o mundo com (muitos) outros olhos. A educação e a cultura me libertaram de alguns clichês que julgo extremamente nocivos para a saúde mental e física das mulheres (goianas ou não).

Mas eu também sou neta da minha avó, uma senhora fantástica que encarnou o que de melhor há na ideia do feminismo, que é, ao meu ver, que as mulheres são tão inteligentes e capazes quanto os homens, e que podem fazer muito mais do que apenas serem donas-de-casa. Só que a minha avó fez isso na década de 50, então há que se admirá-la - era mãe de seis filhos, era esposa, era advogada e era contadora. Além de tudo isso, era filha da primeira mulher a se desquitar no estado de Goiás, minha bisavó Sebastiana. Creio que ela superou muitos preconceitos e expectativas, e sou sua admiradora incondicional.

Então eu fui criada e me formei jornalista numa cidade conhecida por ser provinciana, cujo trunfo maior, para além das criações de gado e plantações de soja, são as mulheres lindas - tão lindas que viram produto de exportação (leia-se: tráfico internacional de mulheres para prostituição). Tão lindas que ser feia é quase crime. Em Goiânia, vê-se mulheres lindíssimas: maquiadíssimas, unhas feitíssimas, cabelos lisérrimos, shorts curtíssimos. Não basta ser inteligente, tem que ser linda. E daí, com sorte, ela poderá ser o troféu de alguém.

E eu, que não nasci nem linda, nem loira, nem de cabelo liso, demorei para encontrar autoconfiança dentro de mim, demorei para enxergar a minha própria beleza, após anos a fio de Xou da Xuxa, bonecas Barbie e filmes do Walt Disney. De todo modo, não perdi muito tempo sendo triste com isso, porque eu gostava de estudar e era nerd com orgulho. 

"Então quanto mais uma mulher trabalha,
mas bonita ela fica!"
Quando eu entrei na faculdade de Comunicação Social da UFG, encontrei lá um monte de meninas como eu - naturalmente belas, mas talvez ignorantes disso. E como só a educação liberta, estávamos condenadas a nos libertar, condenadas a estudar, a abrir nossas cabecinhas poluídas de cultura de massa, condenadas a buscar um pensamento crítico sobre o mundo. Eu não li a Beauvoir enquanto estava na universidade, e também não participava dos grupos de «discussão de gênero». Tinha, na verdade, repulsa sobre esse tipo de discussão. Eu não comprava aquele discurso, considerava-o raivoso e improdutivo. Isso não significa que não visse, não compreendesse e não sofresse com o machismo - o que eu não concordava era como essa «luta de gêneros» se dava dentro da universidade. 

Hoje eu vejo que posso ter perdido uma oportunidade de aprender mais sobre o movimento feminista, mas acabei trilhando meu caminho sozinha, lendo aqui e ali alguns manifestos, alguns livros e alguns textos. Inclusive a Beauvoir. A internet é sempre uma fonte de pesquisa, encontra-se muitos blogs e textos, tanto de feministas radicais quanto moderadas. Apesar de ainda ser muito ignorante quanto à história do feminismo,  suas lutas e conquistas, sei que devemos muito à mulheres anônimas que passaram maus bocados em busca da ampliação dos direitos da mulher: o direito de votar, o direito de trabalhar fora de casa, o direito de se divorciar e ser respeitada. O direito de ser feia, o direito de ser gorda, o direito de focar na carreira e não na vida familiar, etc. Daí que, após refletir um pouco sobre tudo isso, eu finalmente consigo dizer e justificar o que eu penso, que é...

"É sempre ilegal matar uma mulher?"
O feminismo não é o contrário do machismo.

O machismo é uma cultura, é uma forma de dominação que hoje já é bem diferente de como era antigamente, há mil, dois, três mil anos. É fruto de uma tradição patriarcalista, onde o homem era mais importante do que a mulher devido à sua força física e a um mundo que era bem mais áridos, ríspido, difícil, sem leis, sem regras. A religião vem para dominar as paixões dos seres humanos e impedi-los de agir a seu bel-prazer, num tempo em que não havia polícia nem lei, e em que um pão roubado era motivo para um assassinato, e que vira-e-mexe as mulheres eram violentadas e violadas. À medida que a sociedade se civiliza, se regula pelas leis, a religião perde sua força de regulação social e aumenta sua força de regulação moral.

O feminismo é uma luta por igualdade. O machismo é a crença na inferioridade intelectual e moral da mulher, mas nem todo machista é misógino. E nem toda feminista é misândrica, isto é, odeia ou despreza os homens.  A ala radical do feminismo pode, sim, ser misândrica, mas é injusto que todo esse movimento pela igualdade de oportunidades, de respeito e de responsabilidade seja distorcido pela sociedade em geral devido a essa fração do movimento feminista. É revoltante, porque aqueles que defendem a inexistência do machismo (isto é, defendem o machismo) usam a misandria de parte da ala feminista para desmoralizar todo o movimento. Especialmente as mulheres machistas*.

*Nota: Após algumas leituras mudei minha percepção do que seria este fenômeno da mulher machista. Um pensamento que concordo é o de que a manifestação de atitudes machista ou a defesa do status quo machista nada mais é do a introjeção profunda do machismo na mulher. A identificação com o modelo já está tão intrincada na imagem que a mulher faz do gênero - e logo de si mesma - que ela não percebe o machismo, ou não percebe que esta visão de mundo lhe é desfavorável. Muitas vezes, inclusive, as mulheres acham que é favorável. Um amigo meu, com quem sempre tenho inúuumeras discussões sobre o tema, sempre coloca duas questões: festas e serviço militar. Sobre as festas, ele reclama daquelas em que a mulher paga menos, por vezes substancialmente, pelo ingresso. Em festas open bar, eu confesso que até acho justo porque as mulheres, em geral, ficam embriagadas bem mais rapidamente do que os homens, devido à sua constituição física, e logo, bebem menos do que eles. Em festas sem a tal regalia, concordo que é machista, e que beneficia as mulheres financeiramente. É uma maneira de garantir que mais mulheres venham à festa em questão. E isso é sim sexista. Meu amigo acha que deveríamos reclamar disso, por exemplo, ao invés dos temas comumente abordados (estupro, violência doméstica, aborto...). Ele parou de tocar neste ponto quando lhe disse que "o mercado de trabalho é injusto e muitas vezes a mulher recebe menos do que um homem, mesmo executando o mesmo serviço". Acho que foi uma boa tacada. Lembrei-me agora de uma imagem que vi na internet, comparando os gastos entre um homem e uma mulher para o primeiro encontro. Basicamente a mulher gasta o triplo do que cara para se depilar, fazer o cabelo, depilação, maquiagem, lingerie, etc. A frase final é: "E ele ainda quer que eu divida a conta?". Sim, neste sentido é correto: a mulher gasta um bocado para ficar linda para o homem. Não só gasta dinheiro, como sofre e perde muito tempo nessa maratona toda. Não é errado querer seduzir seu parceiro, mas é mesmo necessário ter que estar sempre linda e perfumada, como acaba sendo de praxe no comportamento das mulheres? É só buscar pelo lucro das empresas de cosméticos, pela quantidade de publicidade que incentiva o cuidado nos mínimos detalhes, a imprensa especializada e suas revistas femininas que dedicam 90% de suas páginas à mesma lenga-lenga do "perca 20kg em um mês com a dieta das celebridades"? O outro ponto que meu amigo costuma tocar é o do serviço militar obrigatório, que não o é para as mulheres. Sobre isso, tenho duas coisas a dizer. A primeira é que, se você, homem, é contra o serviço militar obrigatório, mobilize-se contra isso! E esteja certo de que várias mulheres lutarão ao seu lado, para que o serviço militar não seja obrigatório para ninguém. Sinceramente, não acho que a luta sobre esta causa irá emergir do movimento feminista, pois já há muito o que fazer pelos direitos das mulheres. É o cúmulo achar que agora o movimento tem que dar conta dos problemas do mundo masculino em específico. A segunda coisa é que há muitos casos de abuso psicológico e sexual contra mulheres militares, no mundo todo. Nos Estados Unidos, elas já estão super organizadas. (14/02/2014)

A luta feminista vai desde coisas cotidianas, como a manutenção e limpeza da casa, até assuntos mais complexos, como a paridade salarial. Hoje, no Brasil, acredito que a luta feminista está centrada nos seguintes aspectos: a questão do aborto, a questão da violência doméstica e a questão da violência sexual (física e moralmente falando).

"Se seu marido descobrir..."
Acredito que o Congresso brasileiro deve urgentemente rever a lei do aborto, iniciando por descriminalizá-lo e, posteriormente, regulamentá-lo. Eu não sou favorável ao aborto, isto é, não acredito que seja uma prática irrelevante, uma coisa sem importância, e lamento por todas as minhas amigas que já o fizeram. Mas o fato de eu pensar assim não me impede de ver a situação global, de compreender os riscos que correm essas mulheres, a máfia de remédios e médicos que existe e que se aproveitam do desespero alheio para ganhar dinheiro. A criminalização do aborto não impede a sua ocorrência, e por outro lado coloca em risco a vida de milhares de mulheres. Então, resumindo, é uma baita hipocrisia, assim como é com relação ao uso da maconha.

A violência doméstica no Brasil é também alvo de muitas discussões nos grupos feministas, e já é bastante estruturada no nosso país. Existem muitos grupos de apoio, existe a lei Maria da Penha, as Delegacias da Mulher, etc. Apesar disso o índice ainda é muito alto e vemos muitos crimes passionais de homens que não aceitam a separação e que agridem, espancam e assassinam suas mulheres. É preciso prevenir esses crimes, puni-los com maior severidade, educar os jovens e adolescentes sobre o sentido da liberdade e do respeito às opções de cada um.

Por fim, a violência sexual física, moral, psicológica. Sobre isso, acho que poderia escrever dezenas de parágrafos. Chega até a ser uma ladainha que já ninguém quer mais ouvir. De mulher-objeto a mulheres-frutas. Da Banheira do Gugu pro Pânico na TV. A televisão aberta brasileira produz, reproduz e dissemina a mulher como vagina-peito-bunda ambulantes, acéfalas, rebolantes. E já que estamos falando de Brasil, que apesar do seu crescimento econômico ainda tem muito chão pela frente no que diz respeito à educação, sabemos que existem muitas crianças e adolescentes que veem esses programas idiotizantes, sexualizam-se de uma maneira doentia e precoce, e crescem com a ideia, tantos os meninos como as meninas, de que mulher só serve se for bonita, gostosa, e se rebolar seminua na TV às 18h do domingo em família.

"Uma a cada três mulheres da América Latina
experiencia a violência física". Eu sou uma delas.
Ocorre-me agora também outras duas questões, que é a do parto em casa e a do estupro, e isso tudo também envolve a questão do aborto. Na verdade, são questões que têm a ver com o domínio da mulher sobre o próprio corpo. A decisão de como se vestir, de onde ir, de como se portar, de como reagir às investidas agressivas e ultrajante de alguns homens que se veem constantemente «provocados» sexualmente pela beleza das mulheres. A Igreja Católica é contra o aborto, mas os deputados e senadores precisam da bênção do Papa para legislar? E as mulheres que não são católicas (supondo aqui que as católicas todas, em unanimidade, são contra o aborto), por que deveriam elas estar sujeitas às crenças de uma religião com a qual não se identificam? Se uma mulher é responsabilizada quando é violentada, quando a violência se justifica por uma peça de roupa mais curta, que tipo de sociedade é essa que culpa a vítima e não o agressor? Não, o feminismo não é o oposto do machismo. Feminismo é o oposto de desrespeito.


29 de agosto de 2012

Compaixão

Com o passar do tempo, aos poucos, aos bocados, vou compreendendo o significado da palavra compaixão. Talvez seja o sentimento mais bonito do mundo. É quando se ama alguém pela sua simples condição humana, tão frágil, tão cheia de falhas. É uma ruga num rosto envelhecido, é um sorriso que um estranho lhe lança na rua, é alguém que ajuda o outro sem ter sido solicitado. É uma dorzinha que compartilhamos todos nós, pelo simples fato de estarmos vivos. Às vezes eu me sinto cheia de amor pela humanidade, e me dá uma vontade de chorar, porque no fundo nós viemos para um mundo onde existe tanta pobreza e desigualdade, tanta tristeza. No intervalo entre uma dor e outra, quem sabe, a gente consiga ser feliz. Num intervalo entre a descrença e a desilusão, eu volto a sentir Deus dentro de mim.

23 de julho de 2012

Quando eu morrer...

...quero desaparecer completamente da face da Terra. Quero ser cremada, colocada dentro de um balão de gás da cor azul e subir pro céu da Chapada dos Veadeiros. Com sorte, ele subirá bem alto, e de repente irá explodir, e eu vou voar pela primeira e última vez. Quero que tudo que seja meu seja doado - meus órgãos, meus livros, meus discos, meus cd's, meus filmes. Quero que meu computador seja formatado e doado. Não quero que façam um santinho com aquelas passagens bíblicas nem com uma música da MPB (salvo Milton Nascimento). Não quero meu corpo num velório com cheiro de vela e flores amassadas. Não quero que as pessoas me digam pra segurar na mão de Deus e ir. Não quero recadinhos post-mortem em qualquer rede social. Quero ser deletada, excluída, vaporizada. Quero ser deletada completa e imeditamente de qualquer suporte que não seja a memória dos meus familiares e amigos que sentirem falta de mim.


Quando eu morrer, quero apenas morrer.

1 de junho de 2012

Pensamentos

Um dia «difícil». Muitas horas em uma repartição pública, almoço caro, maus-tratos de um velho racista. Mas para cada coisa ruim, houve uma boa: na repartição, aquelas senhoras africanas sorridentes com seus filhinhos lindos; o almoço foi caro, mas o pessoal era gentil; o velho da loja é racista, mas é cego de um olho e de outras coisas também. O pessoal da outra loja, em compensação, é sempre muito legal comigo.

Portugal, um país de contradicto dentro de mim. Se algum dia alguém me dissesse que eu moraria aqui, não acreditaria. Sempre tive um certo desprezo por essa ideia, porque ouvia histórias horríveis de como os brasileiros eram mal-tratados aqui. Já agora não penso assim, porque isso seria trair os amigos que eu fiz aqui. Portugueses ou não. Não gosto quando falam mal daqui. Aqui é a pátria do Pessoa, e só isso já é o suficiente para mim.

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Ontem, à hora de deitar, voltei ao livro do Bill Nichols sobre documentários. E porque tenho internet em casa (benzadeusnossosenhoraleluuuia), sempre posso ver pelo menos algum trecho dos filmes que ele cita, quando não o filme todo, em especial os curtas. É de um privilégio imensurável! Quando pensamos em como as coisas eram antigamente... o acesso era muito mais difícil! Não haviam tantas mostras nem festivais de cinema, e eram também mais concentradas nas grandes cidades mais industrializadas. Cinematecas? Só pra quem morasse em São Paulo. Com a internet, o mundo fica mesmo mais perto, e o tempo cabe dentro da régua. É mesmo outro mundo esse em que hoje vivemos. Ainda assim, um filme de 1929 nos mostra que a sensibilidade atual ainda não se afastou tanto dessa antiga. Há um sentimento tênue que liga todos aqueles que enxergam a textura, a pintura e a aquarela da água em movimento.


H2O (1929), de Ralph Steiner

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Ainda no regozijo das possibilidades cinéfilas inestimável que a Internet, com I maiúsculo, nos oferta, vai esse curta experimental delicioso, que trabalha com os elementos ópticos da câmera, com as lentes, enquadramentos, junções e fissuras das imagens espelhadas, o que é às vezes poético, ou cômico, ou caótico. Ficou mesmo a cara de Nova Iorque, mas sem a pretensão de ser um documentário explícito. Interessante porque foi feitos nos anos 50, e ainda que no fim (1957), esta foi uma década careta, e a emergência de uma obra que intencionalmente ver a cidade sobre um prisma que a deforma é bom sinal.

NY, NY - A day in New York (1957), by Francis Thompson - Parte 1

NY, NY - A day in New York (1957), by Francis Thompson - Parte 2

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Brasil. O país mais interessante do mundo. Rico porque tem um povo que é malandro, mas é trabalhador. Pobre, porque só tem políticos malandros e poucos políticos trabalhadores. Gringolândia, não se iluda.

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A violência da Polícia Militar brasileira já é há muito conhecida pelo povo brasileiro, especialmente se você for pobre, ou negro, ou as duas coisas. É uma questão complexa demais para ser debatida em cima do senso comum que eu e que a maioria das pessoas têm do assunto, mas é difícil deixar de expressar uma opinião sobre o assunto, diante de tanta violência. Quando pensamos na falta de infra-estrutura básica em milhares de cidades brasileiras, desde a água encada, energia elétrica, calçadas e asfalto, transporte públicos, centros de saúde e hospitais públicos decentes, escolas, fica mesmo difícil compreender qual a raiz do problema. Eu não conheço ninguém da classe média que se habilite a ser PM, a ir para as ruas lidar com as tensões do dia-a-dia levadas a cabo e efeito pelos «bandidos» e «criminosos»: assaltantes, sequestradores, homicidas. 

O que me leva a concluir que aqueles que se candidatam ao cargo de policiais militares são os mesmos que enfrentaram durante toda a vida a crueldade do sistema social e econômico brasileiros. Pessoas que tiveram pouco acesso à educação formal e às ideias humanitárias que são o senso comum da classe média intelectualizada (mas que nem por isso deixa de ser alienada, uma vez que não sente na pele as vicissitudes da pobreza mental e material). 

Os caras são vítimas de um sistema que ajudam a perperuar, uma vez que são os algozes, são as mãos que a classe média se nega a sujar. Há uns meses li uma matéria em um jornal na internet esclarecendo que o atual sistema de policiamento brasileiro, onde já não há a guarda municipal, mas sim o policiamento militar, é uma herança «maldita» da ditadura militar (1964-1984). Isso explica, em parte, a cultura da violência dessa corporação, que é também altamente corrupta (dessa vez, sujando as mãos no lugar dos políticos, que também estão envolvidos na máfia do tráfico de drogas e armas, e sabe-se-lá-o-que-mais). 

Os policias militares enfrentam em seu dia-a-dia coisas que a classe média não sabe, não imagina. Poucas são as referências ao seu universo, tanto em matéria de televisão quanto de cinema, no que diz respeito à visão de mundo que eles têm. Sei de apenas um documentário brasileiro que vai mais a fundo na questão, que é o «Notícias de uma guerra particular», de 1999, dirigido por João Moreira Salles (um aristocrata) e produzido por Kátia Lund. Pesquisando na internet, vi que um tem um outro doc, intitulado «Sequestro», mas esse não assisti. Este último foi feito com a Polícia Civil, que vai para as ruas também, mas cujo trabalho é principalmente de investigação.

O fato é que no dia 30 de maio a ONU soltou a seguinte recomendação: de que a Polícia Militar deveria ser extinta, porque é ineficaz, violenta e promotora mais de conflitos do que de soluções. Num momento em que o mundo está de olho no Brasil como nunca dantes (se bem que o Brasil é um país muito pop), é bom que os nossos governantes saibam que o mundo está vendo o que acontece aqui, não apenas política ou economicamente, mas socialmente também. Acho que a PM deve ter levado um susto com essa notícia. Num primeiro momento, eu comemorei a notícia, é claro, porque todos os dias lemos relatos e notícias dos abusos policiais. Mas, num segundo momento, eu questiono se o Brasil é um país que se aguentaria em pé sem uma polícia. Quero dizer, onde está a raiz do problema social? Enquanto isso não for minimizado, poderíamos nos abster da PM? O que sei é que do modo como está não podemos aceitar. Mas, infelizmente, não julgo que estamos preparados para uma polícia no estilo inglês.