30 de maio de 2009

The End


Estou tentando não desistir, não desacreditar. Me pergunto qual a minha luta, qual será o meu papel neste mundo. Talvez a felicidade não exista mesmo, como tanto quer insistir um outrora amigo meu. Quando estou "feliz", ou tranquila, serena e em paz, minha única preocupação é continuar nesse estágio. Fico mais frívola, menos preocupada com "coisas importantes". Esqueço da infelicidade alheia e me concentro na minha felicidade.

Mas, se não contramão disso, encontro-me triste, ou desanimada, ou desesperançada, começo a pensar em quantas coisas estão erradas neste mundo, e como tudo é tão fora de controle, fora de lógica. Toneladas de comida desperdiçadas apodrecendo e milhares de pessoas morrendo de fome. Um monte de gente se matando e outras tentando (sobre)viver a cânceres e outras doenças mais. Pessoas andam de bicicleta e outras compram carros. Famílias se separam. Lágrimas correm e sorrisos se abrem. Uns rezam, outros maldizem a vida.

E eu aqui. Fazendo da minha vida o próprio relicário. Às vezes achamos que estamos entrando em um caminho cujo único trajeto possível é a felicidade. A gente se engana e acha bom. A gente se ilude e acha bom.

Eu devia estudar, mas não consigo me concentrar. Ouço todas as músicas preferidas que se encaixam no meu estado de humor. Eu quero esquecer tudo o que me faz mal, quero perdoar todos os que me prejudicaram, quero também perdoar a mim mesma, quero acreditar em Deus, quero voltar a ter esperança, quero ver o meu pai, quero conhecer as minhas sobrinhas, quero filmar a minha avó, quero virar gente grande, quero ser poeta do cotidiano, quero fazer mais um milhão de poucos e bons amigos, quero saúde pra dar, emprestar e partilhar.

Quero ver poesia de novo na minha vida, pulsar como já pulsei; ainda não esgotei com a poesia e nem com a vida. Se eu tenho um motivo de existir, que eu o descubra. Que eu o descubra e ele faça com que eu me descubra, que eu recupera minha Força e que a Sacerdotisa volte seus olhos para mim e me ajude e me encontrar de novo.

Quero tatuar amor na minha alma e não cometer os mesmos erros de novo. Quero voltar a ser poeta e ter paciência e diligência para meditar, estudar e me cuidar.

Se eu for melhor pra mim, eu vou ser melhor pro mundo. E é esse o meu fim.

26 de maio de 2009

[enjôo]


Eu não tenho sentido nada

Apenas um pouco de

Dor de cabeça

Em sua envergadura coqueal, casual


Eu não tenho sentido muito

Apenas digo qu’eu sinto muito por você


E quando eu me tornar

A minha cura

e cessar estes males


Vou voltar a cantar no chuveiro

Dançando um blues

Pra entrar no seu ritmo.


[Lígia BB]

[poema da exaustão]

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qualquer ponto em movimento
qualquer assento pra servir
de consolo para a minha indecisão
descobri que é fácil perder
a única razão que se tem
quando não há razão nem espaço
onde me caiba
a cada passo lento que dei
pra ficar mais perto do desejo
meu rastro não permaneceu
e eu estou sem estórias pra contar
a sua razão não é matemática
mas a sua indiferença brilha
bem aqui ela ilumina
e lá ali ela sombreia
agora, eu: teimosia, cama, quarto,
sala e cozinha
em qualquer canto que se vive essa vida
eu me arranjo: vou me requentar
pra dormir com você
o nosso tempo não é
além do tempo da madrugada
um abraço fatigado
seu beijo dado é quase o seu beijo roubado
nesse barco azulado
você faz a indiferença

[Lígia BB]

Alcoólicas - Hilda Hilst


Alcoólicas

de Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

(Alcoólicas - II)

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

(Alcoólicas - IV)

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

(Alcoólicas - V)

in Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992