O mundo dá sinais e avisos. Às vezes eles são nítidos como água de cachoeira da Chapada, às vezes turvos como a água do Tietê. Ou às vezes é a nossa percepção que anda meio capenga, meio turva, e não vê, não enxerga, não percebe que, apesar de toda a dificuldade existente nesta vida, o universo às vezes conspira a nosso favor. O que aconteceu comigo esta semana abriu meus olhos para o fato de que meu corpo é frágil, que a vida é curta e que quem fica parado é poste.

Senti alguém segurar meu braço. Estourei em soluços comovida pelo meu próprio discurso. Segurava a Magali com as duas mãos, tão ensandecida que pensava em montar em cima dela e ir embora pedalando. Retirei-a do local do acidente. Ficamos eu e ela juntas no meio-fio. Olhava pra velhota distraída e sentia um misto de raiva e pena. O sangue pingava, eu chorava e não sabia o que fazer. Magali com a roda torta não podia me ajudar a ir embora. As pessoas foram surgindo na rua. Dentro da mochila, minha blusa branca onde um dia pintei um símbolo de bicicleta. Por fora da mochila, os dizeres “trânsito consciente”. Ironias do destino. Ganhei essa mochila há duas semanas, durante um encontro nacional promovido pelo Ministério das Cidades (Programa Bicicleta Brasil). Liguei pra minha mãe. O lábio rasgado, preso no dente canino, não me permitia fazer compreender. Ligaram pros bombeiros. Falaram com a minha mãe. Uma médica apareceu. Ela não parava de falar. A velha o tempo todo com as mãos juntas, parecia que rezava. Eu me desculpei por ter gritado com ela. Depois me arrependi um pouco, pois ela me olhou de um jeito, fria, não moveu um músculo da face, não esboçou reação. Decerto achava que não fizera nada de errado. E eu com a boca estourada.

