3 de agosto de 2016

As Três Marias


Lá se vão as Três Marias. Vão longe, voam, flutuam. Superam a carne. A vida transborda. Tudo é possível. A vida é o milagre mais difícil. Há resistências que não podemos superar. Há fatos. A vida é fato. A vida não é possibilidade, é tão-somente o que acontece. A vida é só o que acontece. E assim é mesmo quando não acontece, e não deixa de ser vida por isso. 

A névoa lhe cai bem, Três Marias. Longe daqui, só há poeira, gases, partículas. O universo se parece com um útero. O seu útero fértil, transbordando de vida. Ele se comunica com o coração, que pulsa por dois. Por duas. 

Lá se vão as Três Marias. Lá se vão, permanecer no firmamento, de onde não lhes podemos machucar. Minhas meninas. Meus amores. Há perdão.

Lá se vão as Três Marias, para não sumir da nossa vista. Para não nos deixar esquecer, assim como o orvalho não se esquece da flor. É o céu que chora por vocês, minhas meninas, minhas Três Marias.

Vê o sol, o mar? Vê a areia da praia, o peixe que nada, a bola que rola, a boca da criança que ri? Foi tudo feito para vocês, Três Marias, minhas três meninas.

Cá embaixo, na mordedura do cotidiano, nós aguardamos seu retorno. Porque a vida é milagre que não arrefece.

Eu vos aguardo, minhas meninas.

27 de julho de 2016

Viva o Chopp

Debochar de si mesmo sem parecer falsa modéstia, ou ainda, falta de amor próprio, é uma arte para poucas pessoas. E quando se dá a sorte de conhecer uma pessoa assim, só o que nos resta é rir, pois é genuinamente divertido.
 
Algumas pessoas debocham dos outros - quanto mais distante e oposto ao emissor, mais afiada a faca da língua.

Mas, oras, já que é pra debochar, por que não de si mesmo? Não é tudo tão engraçado?

A diferença entre o trágico e o cômico é que, quando me atinge, é trágico.

Cômico ou caricatural: não há relação, não há correspondência. Quando se diz que um grupo étnico é desumanizado, não é apenas uma palavra, mas um sentimento que corresponde a uma realidade: a de que alguns povos não irradiam simpatia para outros povos, ou que não se sente empatia por eles.

As homenagens em forma de #hashtags, bandeiras, cores, frases, superposições em fotos de perfil, demonstram onde se situa a atenção geral quando se trata de tragédias humanas - por exemplo, as séries de atentados terroristas que têm estado presentes, como um pesadelo antigo que retorna.

(Aos poucos, com as críticas à seletividade, as manifestações se arrefeceram, de certa forma; as guerras, por outro lado, não).


Nos deparamos com grande quantidade de massacres deliberados provocados por seres humanos contra outros - ou por negligência, como na hidrelétrica de Mariana (MG), que acarretou em mortes e destruição da vida de muitas famílias humildes -, e com a impossibilidade física e humana de se manifestar publicamente sobre todos eles.

Apesar de tudo, existe a música. E a literatura. E a poesia.

E, assim, extravasamos tudo o que não podemos gritar a todo momento.

(Escrito ao som do álbum "A Máquina Voadora" (1968), de Ronnie Von)



 
Viva o Chopp

Eu não quero saber quem sou
Enquanto o mundo gira eu vou
Não me importa saber da dor
Por onde ando vejo amor

Eu grito hey, hey, hey
Eu grito hey, hey, hey
Eu grito hey, hey, hey

Viva o sol e o mar, eu digo
Viva o azul e o verde, eu penso
Viva o chopp escuro no calor!

Vamos todos viver a vida
Pois ela acaba na avenida
A verdade está no céu aberto
E a felicidade tão perto

Eu grito hey, hey, hey
Eu grito hey, hey, hey
Eu grito hey, hey, hey

Viva o sol e o mar, eu digo
Viva o azul e o verde, eu penso
Viva o chopp escuro no calor!

Eu não quero saber quem sou
Enquanto o mundo gira eu vou
Não me importa saber da dor
Por onde ando vejo amor

5 de fevereiro de 2016

Cheiro de limão

É 2012 de novo. É sufocante. A trilha sonora mudou, mas ela soa a nostalgia. O cheiro é de limão. O cenário é o mesmo. Eu chego, fico.

Mas não é abandono. É só o cheiro do limão. O cheiro do não. O fedor do cigarro na mão.

No mercado, ajo como uma louca ao escolhê-los. Uma atividade tão banal como escolher limões para tomar de manhã pode levar alguém ao desespero, a um desespero útil, que é como uma chave que a vida te dá. Você usa a chave para abrir e dá de cara com a realidade. A lágrima presa na pálpebra faz as vezes de óculos,  deixa tudo mais nítido. Abaixo os olhos, limpo o nariz.

Eu estava sentada nessa cadeira, à esta mesma mesa, defronte este mesmo computador. Você chegou empolgado, com aquele sorriso enorme, cheio de dentes. Suava da pedalada e sempre chegava com a língua pra fora. Mil sacolas para guardar. "Precisamos pegar mais sacolas de plástico", você observou um dia. Andávamos muito ecológicos e já não tínhamos sacolas para usar nas lixeiras. Um problema, realmente.

Neste dia você trouxe muitos limões. Não faz muito tempo, você deve se lembrar. Trouxe os limões mais lindos que achou no mercado, buscou aqueles com a pela mais lisa, mais cheios do bendito sumo. E que lindo foi te ver ansioso para me mostrar os limões, se eles estavam do meu agrado, se você tinha escolhido bem. Eu te dei uma nota 9 e você fez um biquinho. Deveria ter tirado 10, pelo esforço.

Tudo isso não há de ser em vão.