16 de setembro de 2013
9 de agosto de 2013
Minha religião
"Quando eu fui embora - porque eu que fui embora - eu estava tão triste que não podia mais chorar. E fui olhando pra trás até onde alcançava a vista, e mesmo depois que já não alcançava nada eu continuei a olhar pra trás e a me lamentar. De fato, eu estou olhando pra trás até agora, separada de você por um monte de fitas que dividem o corredor como um labirinto. Meus olhos estão ardendo, de ontem, e eu tento perceber se as pessoas ao redor estão felizes ou tristes como eu. Ouço o meu sotaque em outras bocas, e percebo que a partir dali eu já não estava mais lá. Não seria preciso esperar as nove horas para chegar. A minha viagem chegara ao fim, e eu voltava mais por medo do que por vontade de voltar.
Eu, quando li que as pessoas demoravam até seis meses para se adaptar de volta, achei que era um exagero, mas coloquei para mim esta meta. Achava que até lá já não haveria mais mapa nenhum entre nós. Triplicaram em minha cabeça os fios brancos que antes passavam despercebidos, mas que agora são como um chamariz que permito existir para me lembrar de que se passaram quase nove meses que eu não te vejo, não te toco e não te amo.
Depois de três meses passados com o rosto sempre molhado da cachoeira salgada, que, impertinente, brotava a qualquer hora do dia, em qualquer canto do mundo, eu me achei muito esperta quando desmanchei os porta-retratos e guardei as lembranças no fundo do armário e da alma. Evitei tudo o que me lembrava você, para que eu pudesse continuar a viver, e não a lamentar o vivido e o passado.
Que ingênua.
Para me preservar eu nos destruí dentro de mim. Quase tomei raiva de você. Inventei motivos para brigar e assim não ter que sentir essa maldita saudade tão opressora e triste. Eu brilhei, brilhei até demais. Quando olhei para dentro, estava tudo opaco. Eu havia destruído o amor do cacto, porque mesmo ele precisava de uma lágrima de vez em quando, para humedecer tão humildes raízes.
É poesia ou é prosa? Mas Gandhi disse que Deus não tem religião. Nem eu.
A minha religião era você. Você era meu pequeno-almoço, meu lanche e meu jantar. Você era o meu abraço e o meu beijo, a minha valsa solitária, a minha banana com granola e mel. Você era a minha religiosidade. Eu te praticava todos os dias, e ainda assim não me cansava. Você era meu travesseiro e minha calma.
Agora tudo mudou.
Toca uma música. Ela entrou por um ouvido, estourou os meus tímpanos e eu enxerguei a verdade. Não adianta fingir. Eu vou precisar me apaixonar de novo por você.
Eu preciso saber:
ainda assim, você vem?"
1 de julho de 2013
Nossinhora!
A história dessa imagem veio de uma fotografia feita em Brasília, em junho, num dos protestos que aconteceu aqui na capitar. Er um cartaz que dizia: "Arr maria, pode nem protestar!". Achei o cúmulo do engraçado e descrevi a foto para algumas pessoas.
Uma amiga me avisou que essa história de "arr maria" é coisa do Bode Gaiato, personagem fictício que existe no Facebook e faz troça de tudo, com sotaque bem paraibano!
Já o desenho da jovem pedalando também não é de minha autoria, mas de Karl Addison, que tem várias ilustrações muito legais de bicicletas e de mil outras coisas.
O restante da imagem fui eu que fiz no Photoshop.
Me divirto muito fazendo essas coisas!
28 de junho de 2013
Campanha «Respeite as Ciclovias»
Você, jovem, criança, adulto ou velhinho que anda com a sua bicicleta pelas recém-inauguradas ciclovias do Plano Piloto do DF, já deve ter notado que ainda há muita gente que não sabe o que é ciclovia, nem sabe que, muito além de ser um espaço para bicicletas, patins e skates, e mesmo pedestres desavisados, a ciclovia é um espaço de cidadania.
Cansada de ver carros estacionados em cima da ciclovia, ou impedindo a passagem nos cruzamentos, ou mesmo impedindo parcialmente alguma faixa com a frente ou a traseira do carro, comecei a distribuir esses pequenos folhetos, como se fossem post-its, nas janelas dos carros mal-educados.
Para que a ideia se espalhe e mais pessoas possam dar a multa cidadã - já que o Detran-DF até hoje não iniciou a prometida campanha educativa no trânsito - disponibilizo aqui a imagem para impressão.
São duas imagens disponíveis, em tamanho A4, com 6 post-its cada. Na que tem o fundo transparente o fundo da imagem será da cor do papel que você escolher. Pode ser amarela, rosa, azul, vermelho, e você só paga a impressão em preto-e-branco. Para baixar a versão com fundo transparente, clique aqui.
A imagem amarela, ao contrário, deverá sem impressa a cores para que o amarelo fique visível. Portanto, aconselho que se compre uma resma de papel colorido e imprimam a preto-e-branco, pois assim ficará bem mais barato! Para baixar a versão com fundo amarelo (impressão colorida), clique aqui.
Boa pedalada!
Cansada de ver carros estacionados em cima da ciclovia, ou impedindo a passagem nos cruzamentos, ou mesmo impedindo parcialmente alguma faixa com a frente ou a traseira do carro, comecei a distribuir esses pequenos folhetos, como se fossem post-its, nas janelas dos carros mal-educados.
Se você já viu esse recado no seu carro, é porque fez besteira!
Para que a ideia se espalhe e mais pessoas possam dar a multa cidadã - já que o Detran-DF até hoje não iniciou a prometida campanha educativa no trânsito - disponibilizo aqui a imagem para impressão.
São duas imagens disponíveis, em tamanho A4, com 6 post-its cada. Na que tem o fundo transparente o fundo da imagem será da cor do papel que você escolher. Pode ser amarela, rosa, azul, vermelho, e você só paga a impressão em preto-e-branco. Para baixar a versão com fundo transparente, clique aqui.
A imagem amarela, ao contrário, deverá sem impressa a cores para que o amarelo fique visível. Portanto, aconselho que se compre uma resma de papel colorido e imprimam a preto-e-branco, pois assim ficará bem mais barato! Para baixar a versão com fundo amarelo (impressão colorida), clique aqui.
Boa pedalada!
21 de junho de 2013
11 de março de 2013
Eu acredito no amor
À medida que eu comecei a pedalar por Brasília os motivos só foram aumentando. Eu sempre gostei de bicicleta e patins, desde criança. Quando morava em Goiânia e estudava no Pré-Médico, com uns 14, 15 anos, eu tentei algumas vezes pedalar até a escola, mas fui poucas vezes porque a subida era difícil, eu não tinha muita força no pedal, a bicicleta não era das melhores e eu morria de medo de ser atropelada (mesmo andando na calçada).
Mas a «planitude» de Brasília sempre me convocou a pedalar, e apesar de ter demorado mais do que o desejável para adquirir uma bicicleta, um belo dia uma magrela preta e amarela (carinhosamente chamada de Magali, em homenagem à personagem do Maurício de Souza) passou a fazer parte da minha vida. De lá pra cá contam-se 5 anos de pedaladas, 1 atropelamento e 3 quedas, e muitos, muitos bons momentos e vários amigos que fiz na Bicicletada.
Aos poucos, a gente começa a pedalar não só para ir de um ponto a outro. Começa a pedalar porque sente que aos poucos o corpo se fortalece, o humor e a disposição melhoram, e a cidade passa a ser outra, mais próxima, mais humana. Pedalamos porque o dia está lindo e é delicioso suar enquanto o vento refresca sua nuca. Pedalamos porque assim vai-se mais rápido, mas ainda podemos sentir o cheiro da dama-da-noite. Pedalamos porque acreditamos na legitimidade deste modal de transporte. Pedalamos porque de vez em quando conseguimos sorrir pra alguém na rua, a troco de nada. Pedalamos porque as crianças ficam curiosas ao ver a bicicleta, e porque isso desperta nelas a vontade de pedalar. E se a sua bicicleta tem flores, você sempre pode se desfazer de algumas para alegrar o dia de alguém.
Então depois de alguns sustos na rua, buzinadas indevidas, ultrapassagens perigosas e um ou outro «acidente», você começa a pedalar porque às vezes sente medo e pensa em desistir, e por isso mesmo é preciso vencer o medo que o mundo quer colocar em você.
São tantos os atropelamentos de ciclistas que a cada dia mais eu pedalo por teimosia. Um dia foi o ciclista sem nome atropelado pelo bilionário wanna be. Outro dia foram duas ativistas atropeladas em São Paulo. Um dia em Brasília. Outro dia em Belo Horizonte. Ontem, mais um em São Paulo, esse com requintes de crueldade difíceis de suportar sem algumas lágrimas e muita dor no coração.
Ciclovias têm sido construídas em toda a região do Plano Piloto de Brasília, mas na Estrutural, na EPTG, nas grandes vias de 6 faixas para carros, recentemente reestruturadas, não há espaço para ciclovias, apesar das condições impostas pelo BNDES (a existência de ciclovias era uma condição sine qua non para o empréstimo dos recursos). E é lá que há o maior uso de bicicletas como meio de transporte (ao contrário do que ocorre no Plano Piloto, onde a maioria das pessoas ainda pedala como forma de lazer ou esporte, isto é, pedala esporadicamente). Então por aí nós vemos qual é a real preocupação do governo, que é ornamentar o Plano Piloto com ciclovias caríssimas, mas que até hoje não foram finalizadas: não há sinalização, não há placas e, principalmente, não há faixas pintadas nos cruzamentos da ciclovia com o asfalto nas rotatórias. E onde há, a preferência, contrariando o CTB, é dado aos carros, e não às bicicletas. Até onde eu sei, o Detran-DF recusa-se a pintar os cruzamentos porque não quer ser responsabilizado pelo atropelamento de ciclistas provocados por motoristas que se recusarão a dar-lhes a preferência. Eu não consigo acreditar que o órgão regulamentador do trânsito use essa desculpa esfarrapada para se isentar de tomar uma providência frente à nova realidade, e cumprir seu papel educador.
O outro problema é que agora, com as ciclovias, muitos motoristas acreditam que o ciclista perde o seu direito de circular no mesmo espaço que eles, na rua asfaltada. Do alto de sua arrogância e egoísmo, pensam que têm mais direitos do que os outros veículos, aproveitando-se de sua óbvia força assassina para amedrontar os ciclistas, que circulam «nus», sem uma caixa de metal que os proteja.
De vez em quando um ou outro motorista educado aparece e faz uma gentileza, mas para cada um que é bom, há outros nove que são simplesmente cretinos. E tudo isso às vezes me tira o ânimo de pedalar, mas eu vou persistir, eu não vou desistir. Não vou ter medo, não vou deixar que me quebrem o espírito.
Quantos de nós terão que morrer para que a sociedade brasileira se aperceba de seu anacronismo, e passe a exigir como um todo pela melhoria do transporte coletivo? Menos carros, menos motor. Mais bicicletas, mais amor.
18 de fevereiro de 2013
A velhice e a vida
Eu pensava que ficar velha era ver nascer os primeiros fios de cabelo brancos. Mas eu estava errada. Então pensei que parte do processo de envelhecimento era ver os amigos e amigas casando-se e procriando. Mas eu ainda estava errada. Percebi que estou sim envelhecendo, por todos esses motivos acima, mas agora me dou conta de que é a morte que acusa a velhice. A morte dos pais dos meus amigos. A morte dos meus pais, que eu sei que um dia virá, não obstante meu medo e minha tristeza. Agora sim eu vejo que estou mais velha, porque a morte se aproxima lentamente, comendo a vida pelas beiradas.
Eu quero comer a morte pelas beiradas.
![]() |
| Esta aquarela é de Maria Eugênia, desenhista que estásempre na revista piauí. Vá na fonte! |
11 de fevereiro de 2013
A Cambinda do Cumbe
Doc/30min/2007/PE
Direção: Luca Barreto
Realização: Canal 03
Sinopse
Documentário sobre o Maracatu Rural mais antigo de Pernambuco. A Cambinda Brasileira está sediada no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata, a 55km de Recife, e completou 90 anos de atividade em janeiro de 2008.
Ficha Técnica
Direção: Luca Barreto
Realização: Canal 03
Fotos: Aline Feitosa, Beto Figueiroa, Elenilson Soares, Mateus Sá e Luca Barreto
Antropóloga/Textos: Sumaia Vieira
Diretor de Fotografia: Mariano Picman
Câmera Adicional: Bacco Andrade, Ricardo Vasconcelos e Luca Barreto
Editor: Ailton Pereira e Luca Barreto
Trilha Sonora: Terno do Maracatu Cambinda Brasileira e Medalha Xukuru (Flautas)
14 de janeiro de 2013
Back to Brazil
A saudade é um atestado tardio de felicidade.
Pra saudade que eu sinto não há cura, apenas memória.
A memória é prisão, e desapego é o contrário de desprendimento.
O tempo corre devagar pelas bandas de cá.
Eu olho pra dentro de mim quando fecho os olhos.
Eu vejo o topo da Basílica alaranjada pelo sol, vejo a linha de ferro do elétrico e ouço o barulho da sua campainha. Eu vejo o vaso de flores em cima da mesa, vejo a grade que cerca o jardim. Vejo o estendal da vizinha e as roupas brancas penduradas.
Vejo você dentro de mim - vejo-nos com as vistas embaçadas.
«Toda lágrima é uma cachoeira» de saudade.
Pra saudade que eu sinto não há cura, apenas memória.
A memória é prisão, e desapego é o contrário de desprendimento.
O tempo corre devagar pelas bandas de cá.
Eu olho pra dentro de mim quando fecho os olhos.
Eu vejo o topo da Basílica alaranjada pelo sol, vejo a linha de ferro do elétrico e ouço o barulho da sua campainha. Eu vejo o vaso de flores em cima da mesa, vejo a grade que cerca o jardim. Vejo o estendal da vizinha e as roupas brancas penduradas.
Vejo você dentro de mim - vejo-nos com as vistas embaçadas.
«Toda lágrima é uma cachoeira» de saudade.
27 de outubro de 2012
Sobre unhas
Durantes as últimas semanas, fiquei a desejar em alguns quesitos do cotidiano, tais como lavar o banheiro ou cortas as unhas dos pés. Também não empenhei em lavar o cabelo mais do que 3x por semana, enquanto dormia às 7h da manhã e acordava a 1h da tarde. Numa palavra, mestrado.
Durante a pausa para o cigarro, finda a limpeza do banheiro, resolvi escrever este texto sobre uma coisa que vem me incomodando mais do que a sujeira da pia: o comprimento das minhas unhas.
Tópicos sobre unhas não estariam no topo de uma lista de prioridades, caso eu tivesse uma. Simplesmente corto-as e lixo-as assim que crescem um pouco, quando começa a despontar para uma sombra sobre a carne do dedo. Às vezes pinto-as, às vezes não.
Acontece que agora que elas cresceram um pouco, e que não me dei ao trabalho de cortá-las, a sensação de manipular as coisas é diferente, de modo muito sutil, é claro, como convém. Faço um pouco mais de barulho quando digito, é o tec-tec das unhas compridas. É um certo não-tocar com a ponta dos dedos. Eu já há um tempo pensava em voltar a deixa-las crescer - pelo menos um pouco.
Da parte incômoda, o primeiro que me vem à cabeça é a quantidade de coisas que entram debaixo da unha - quando se vai mexer na carne moída, por exemplo, ou simplesmente sujeira mesmo, da boa e velha. Na hora de tomar banho e lavar as orelhas é terrível. Qualquer coçadinha inocente é como um desmatamento da epiderme. E me dá mania de coçar a cabeça até quase machucar.
A lista das vantagens é boa: unha grande é boa pra fazer ai-ai nas costas, bem suavemente. Melhor sonífero que há. É boa para remover etiquetas e catucar coisas miúdas. Protegeu-me já diversas vezes contra a serra da faca na manipulação de cebolas e afins. Pra catucar sujeira do ouvido é muit útil (é nojento, mas é verdade - não é preciso admitir que você também o faz, entretanto). Perceba que catucar a sujeira do ouvido é muito diferente de limpar as orelhas.
Enfim... vou cortá-las, as unhas, pelo menos um bocadinho.
(Digitar em pé não compensa).
Durante a pausa para o cigarro, finda a limpeza do banheiro, resolvi escrever este texto sobre uma coisa que vem me incomodando mais do que a sujeira da pia: o comprimento das minhas unhas.
Tópicos sobre unhas não estariam no topo de uma lista de prioridades, caso eu tivesse uma. Simplesmente corto-as e lixo-as assim que crescem um pouco, quando começa a despontar para uma sombra sobre a carne do dedo. Às vezes pinto-as, às vezes não.
Acontece que agora que elas cresceram um pouco, e que não me dei ao trabalho de cortá-las, a sensação de manipular as coisas é diferente, de modo muito sutil, é claro, como convém. Faço um pouco mais de barulho quando digito, é o tec-tec das unhas compridas. É um certo não-tocar com a ponta dos dedos. Eu já há um tempo pensava em voltar a deixa-las crescer - pelo menos um pouco.
Da parte incômoda, o primeiro que me vem à cabeça é a quantidade de coisas que entram debaixo da unha - quando se vai mexer na carne moída, por exemplo, ou simplesmente sujeira mesmo, da boa e velha. Na hora de tomar banho e lavar as orelhas é terrível. Qualquer coçadinha inocente é como um desmatamento da epiderme. E me dá mania de coçar a cabeça até quase machucar.
A lista das vantagens é boa: unha grande é boa pra fazer ai-ai nas costas, bem suavemente. Melhor sonífero que há. É boa para remover etiquetas e catucar coisas miúdas. Protegeu-me já diversas vezes contra a serra da faca na manipulação de cebolas e afins. Pra catucar sujeira do ouvido é muit útil (é nojento, mas é verdade - não é preciso admitir que você também o faz, entretanto). Perceba que catucar a sujeira do ouvido é muito diferente de limpar as orelhas.
Enfim... vou cortá-las, as unhas, pelo menos um bocadinho.
(Digitar em pé não compensa).
23 de setembro de 2012
Travessia
«Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar. Estou só, e não resisto. Muito tenho pra falar».
Ano do Brasil em Portugal (e vice-versa)
Eu não ia dizer nada, mas não consigo tirar isso da minha cabeça, nem tirar esse aperto do peito, então eu vou ter que escrever um pouco, porque eu preciso desabafar.
Começou ontem, oficialmente, o Ano do Brasil em Portugal. Fizeram lá no Terreiro do Paço, se não me engano, umas cenas comemorativas, e coisa e tal. Ontem também foi o dia do Equinócio - começa a primavera no hemisfério sul, e aqui no norte, o outono. Outra coisa importante ontem foi o aniversário da minha mãe, para quem comprei girassóis, assim mesmo à distância, «with a little help from a (cousin) friend». Também foi aniversário de um amigo meu ontem, natural do Porto. Ele dá aulas na Covilhã, e depois de ter passado uns filmes num projeto que ele criou lá na cidade, nós fomos ficando amigos. Em agosto, ele se mudou pra Lisboa, e foi morar numa república de amigos meus, o que me deixou muito feliz, porque agora ele é amigo dos meus amigos também.
Esta é uma república de estudantes, como são quase todas as repúblicas, acho eu. Por lá já passaram brasileiros, italianos, finlandeses, romenos, mas nunca antes tinha lá morado um português. Ele é o primeiro, e foi indicado por mim,que por acaso do destino, nasci no Brasil, sou brasileira. Ontem de manhã recebi uma mensagem desse meu amigo portense, me convidado para seu jantar de aniversário. Cheguei um pouco atrasada, porque fiquei no skype com minha mãe e minhas primas, e meu sobrinho-primo que nasceu há 17 dias. O jantar ainda não estava servido. Estavam lá minha amiga querida da Finlândia - uma das pessoas mais doces e gentis que já conheci - um casal de amigos dela, também da Finlândia, a madrinha do aniversariante, e um casal de amigos dele. Mais tarde, chegou mais um outro casal de amigos. Os rapazes eram naturais da Covilhã, onde eu morei e estudei por 6 meses.
Foi tudo muito bom, estava um clima muito legal no jantar, os aperitivos fartos e muito bem-feitos, conversas amenas, uma ou outra piada de descontração, etc. Fomos, eu e os finlandeses, ao ex-quarto do italiano que recém-partiu de volta pra Milão, com o fim do semestre escolar. Ficamos lá, fumando e falando de vegetarianismo e islamismo, dois assuntos muito polêmicos, rs rs. Quando voltamos pra cozinha, estavam lá os casais contando histórias da Covilhã.
A Covilhã é uma cidade muito pequena, que quase não se sobressai, e apenas tomou mais atenção do povo porque há 26 anos existe lá uma universidade pública, a UBI. Como todas as cidades pequenas, não acontece muita coisa por lá; as pessoas são, em geral, mais conservadoras tanto política como moralmente, e, como toda cidade do interior, pela falta de assunto, a vida alheia é a coisa mais interessante que pode haver. Estavam lá os dois rapazes da Covilhã falando da vida alheia, comentando que fulano saiu do armário, que o outro bebeu demais, que não viam a Fulana Cicrana há não sei quanto tempo, etc. As mulheres quase não falavam, enquanto que seus companheiros fofocavam alegremente. Pessoalmente, prefiro temas mais controversos, e que não envolvam a sexualidade alheia, que isso não é da minha conta.
Por essa razão, o jantar estava basicamente dividido em dois grupos: o dos lusitanos, e o dos estrangeiros. No meio, o aniversariante, que ora conversava com um grupo, ora conversava com o outro. Lá pela meia-noite, senti muita vontade de ir embora, mas acabei ficando (o que me fez arrepender amargamente depois). Nessa altura, os lusitanos estavam sentados perto da janela, e nós perto da porta. Cada qual no seu assunto, cada qual na sua conversa. Eles então começaram a falar sobre o cinema brasileiro. Ouvia palavras esparsas. Um dos rapazes olhou pra trás, para ver se eu estava reparando na conversa deles. Notei o movimento, e olhei pra trás. Ele virou de costas. E assim foi. Do cinema pra cultura brasileira, foi um pulo. Então começaram a falar sobre a mulher brasileira. E sobre o homem. E sobre como as mulheres são vaidosas, oferecidas e que agarram os homens sem a menor vergonha. E como os homens são rudes e mal-educados e agarram as mulheres. E como TODOS os brasileiros são assim-assim-assado. Brasileiros e brasileiras, frisou uma das raparigas. E que eles não têm educação. E mais uma série de ofensas ao povo brasileiro em geral, tomando muito cuidado de falar em uma altura ideal para que eu escutasse bem. De vez em quando, olhavam para trás para se certificar das minhas reações.
Agora, é a parte mais difícil, que é a de traduzir tudo que se passou dentro de mim, durante essa uma hora em que eles ficaram falando do alto de sua propriedade portuguesa como turistas em Salvador e no Rio de Janeiro, sobre a selvagem cultura brasileira. Primeiro, fiquei surpresa com a tranquilidade com que ofendiam o povo brasileiro na minha presença. Como bem disse o Ariano Suassuna, falar mal de uma pessoa na cara dela é muita falta de educação. Não estávamos num bar - estávamos na casa de um amigo em comum, no seu aniversário, e eu era tão convidada quanto eles. Fui ficando com antipatia daquele bando de provincianos. Ainda não compreendo como o meu amigo tem amizade com um povo com a cabeça tão pequena.
O que me dá mais raiva, na verdade, é como atitudes racistas como essas infectam meu estado de espírito quase como uma doença na alma. Ainda estou, como é óbvio, muito perturbada com a atitude deles. O casal de finlandeses anunciou sua partida. Eu talvez iria dormir lá, mas isso significava ter que continuar ali ouvindo ofensas contra o Brasil. Então fui embora também. No caminho, fui pega pela maior tempestade que já enfrentei, fiquei completamente encharcada, andei que nem uma condenada, e por pouco não fiquei doente. Dormi mal, acordei mal-humorada e com ressentimentos de todos os portugueses do mundo. É isso que me deixa mais chateada - como o ranço negativo de algumas pessoas faz com que eu sinta raiva de tudo, que me arrependa de ter vindo pra cá, que fique eu mesma com pensamento racistas - todos os portugueses são uns infelizes, mal-humorados, mal-educados, racistas e invejosos, sem amor-próprio, etc. Que raiva por me deixar contaminar por esses imbecis. Que raiva por não ter feito nada - mas, fazer o que? Bater boca com gente ignorante não adianta muita coisa. Se eles não têm educação, nem consideração pelo próprio amigo aniversariante, deliberadamente ofendendo uma de suas convidadas, eu é que ia não descer ao nível deles, e estragar o jantar para todo mundo.
E não deixa de ser notável que nesta república, que sempre abrigou estrangeiros, eu nunca tenha passado nenhum momento constrangedor por ser da nacionalidade que sou, muito pelo contrário. Sempre fui muito bem-recebida por lá, conheci pessoas de vários lugares do mundo neste apartamento, todos sempre muito gentis uns com os outros, e os habitantes da casa sempre muito contentes desse espaço multicultural. É uma pena que isso tenha mudado justamente com a presença dos portugueses.
E não deixa de ser notável que nesta república, que sempre abrigou estrangeiros, eu nunca tenha passado nenhum momento constrangedor por ser da nacionalidade que sou, muito pelo contrário. Sempre fui muito bem-recebida por lá, conheci pessoas de vários lugares do mundo neste apartamento, todos sempre muito gentis uns com os outros, e os habitantes da casa sempre muito contentes desse espaço multicultural. É uma pena que isso tenha mudado justamente com a presença dos portugueses.
Para não me deixar afetar pelo racismo dessas pessoas, eu faço uma lista mental das boas pessoas que eu conheci aqui, com quem fiz amizade, mesmo que passageiras - eu me esforço para lembrar daqueles portugueses que foram gentis comigo na loja, na rua, etc. Lembro do Fernando Pessoa e do José Saramago. Tento me lembrar das coisas bonitas de Portugal, e dos momentos felizes que eu passei aqui. Eu não quero reforçar os estereótipos, não quero agir nem pensar como essas pessoas.
Então eu me deparei com dois trabalhos científicos sobre o racismo em Portugal - são enormes, vai demorar um pouco até que eu possa ler. Num desses trabalhos, já nas primeiras páginas, encontro um link: «Um exemplo hilariante de jogo com os lugares-comuns da comunicação social e com os estereótipos sobre os muçulmanos resultantes do desconhecimento é o sketch do Gato Fedorento».
Então esta é a minha vingancinha contra os racistinhas de ontem à noite, este vídeo que ridiculariza o tipo racista, ignorante e inútil que infelizmente existe em qualquer lugar do mundo. O engraçado mesmo é como o preconceito que existe aqui contra os árabes e outros povos do Oriente Médio me leva a crer que o pessoal não tem espelho em casa, porque no sul de Portugal o que tem de gente com cara de árabe, com os olhos grandes, os cabelos bem pretos e grossos, a barba cerrada, a pele morena, o nariz grande... mas eles são muito ignorantes para saber que tais características físicas vêm do sangue dos mouros que invadiram Portugal no século 14. Eles têm preconceitos contra si próprios. Que falta faz uma boa educação!
Seguem os links dessas duas pesquisas sobre o racismo em Portugal.
18 de setembro de 2012
Hipocrisia 1 x 0 Seios
Acabo de ler uma entrevista com uma ex-participante do Femen Brasil, que é o braço verde-amarelo do Femen Ucrânia. Esta moça, chamada Bruna Themis, colocou a boca no trambone e criticou duramente a «líder» do movimento, Sara Winter. Basicamente, a tal Sara, que tem sido e acontecido no Brasil e afora, é simpatizante do neo-nazismo, admira o bigodinho do Hitler e sua alcunha é a mesma de uma espiã inglesa nazista. Para além disso, Thamis criticou o movimento no Brasil por sua ausência de posicionamento político, sua relação mal-assumida com um partido político de um «assessor voluntário» que é atual candidato a vereador, e pela falta de embasamento teórico e conceitual do movimento. São acusações graves que certamente vão tirar muito a força do Femen Brazil e de sua líder-linda-e-loira-pintada-que-se-veste-de-pin-up. Para ler na íntegra, clique aqui.
Que pena. A coisa toda mal começou e já vai pelo ralo, e vai servir de prato cheio às ânsias devoradoras dos anti-feministas e dos machistas de plantão, sempre prontos a desmoralizar qualquer ato advindo de mulheres que vise adulterar a realidade machista do país das bundas.
Então vamos falar de moralismo.
Mostrar a bunda na TV? Pode.
Mostrar mulheres de biquíni rebolando no Pânico na TV? Pode.
Dançar seminua no Carnaval? Pode.
(Lembrando o contexto da mulher-objeto, etc., etc., não vou falar muito senão serei chamada de feminazi).
Mostrar os peitos em frente à embaixada da Rússia pode? Não pode (também não pode jogar lata de tinta na frente da embaixada, oras, é claro que não).
Mostrar os peitos dá cadeia, oras!! Menos no carnaval (na praia também não pode).
Exemplos:
Pode.
Não pode.
Pode.
Não pode.
Pode.
Não pode.
Pode.
Não pode.
12 de setembro de 2012
9 de setembro de 2012
Cavalheiros e Damas
É um drama, eu sei, um grande, eloquente e, geralmente, pouco prolífico drama a questão do feminismo. Por causa da ala radical feminista, que muitas vezes é misândrica, isto é, abomina o sexo masculino, grande parte de todo o movimento acaba sendo taxado de radical e inútil por aqueles que querem diminuir os apelos feministas contemporâneos.
Antigamente, e nem tão antigamente assim, as mulheres tinham muito pouca liberdade: elas não podiam votar, não podiam assinar contratos, não podiam receber herança, e não podiam trabalhar em cargos de grande responsabilidade. Eram poucas as que podiam ir à universidade, e se elas não conseguissem se casar, estavam fadadas a uma vida miserável e infeliz de humilhações constantes. Não havia outro sentido na vida das mulheres que o de casar-se e procriar.
Hoje em dia, ao menos no mundo ocidental, por assim dizer (em partes da Ásia também, é claro, e na Oceania) já não são esses os problemas enfrentados pelos seres humanos do sexo feminino. Porque hoje vivemos num mundo «politicamente correto», as antigas concepções de vida resistem sob a forma da hipocrisia. Não podendo dizer o que realmente pensam, as pessoas seguem simplesmente sendo hipócritas, pois não querem ser taxadas de racistas, nem de homofóbicas, nem de antiquadas, etc. Eu, que não sou perfeita, também tenho lá minhas crises éticas, às vezes julgo as pessoas por coisas que eu talvez não deveria, às vezes também faço a patrulha ideológica em cima dos outros.
O lugar onde há mais patrulha ideológica que eu conheço é o amado & odiado Facebook, o blogue coletivo da atualidade. Se os seus amigos são gente boa, se você sabe manejar mais ou menos as ferramentas do site, consegue manter até um nível razoável de interesse nesse «blogue». Eu, por exemplo, tomei uma tarde para eliminar pessoas com as quais eu não mantinha contato, e as que ficaram foram rigorosamente separadas em categorias. Sim, soa horrível, mas eu tive que fazer isso. Separei as pessoas em listas - Amigos, Melhores Amigos, Família, Institucionais e Restritos (que não veem nada do que eu publico, a não ser que eu torne público, o que eu nunca faço). Na última lista tem umas 300 pessoas. Meus álbuns de fotografias, a grande maioria estavam, até ontem, restritos aos Melhores Amigos (das quais a metade é minha família). Ontem eu coloquei-os disponíveis só para mim.
É uma situação contraditória, afinal, se eu quisesse realmente proteger minha privacidade, sequer teria aberto uma conta no site (nem tampouco um blogue). Ou então não publicaria tantas coisas lá - mesmo que não sejam pessoais, em sua maioria, não deixam de revelar muito sobre o que eu penso, minhas preocupações, minhas preferências, minhas inclinações políticas, etc. E mesmo que eu jamais publicasse absolutamente nada de cunho pessoal (o que de vez em quando eu acabo fazendo), quando vou dar pitaco nas publicações dos meus amigos, eu também estou revelando um pouco - ou até muito - de mim.
Esses dias, por exemplo, um amigo compartilhou uma imagem. Era um printscreen de uma declaração de fulano chamado Arbustus, que usa uma foto do personagem Travis Bickle (Robert De Niro), de «Taxi Driver» (1976).
Robert De Niro de moicano, na pele do icônico personagem que lhe garantiu muitos fãs e uma indicação ao Oscar, mas que não era muito cavalheiro
A declaração dizia assim: «Cavalheirismo é o nome que as mulheres dão à parte do machismo que lhes é conveniente». É claro que «mandei a boca» ao meu amigo, como dizem os portugueses. Achei a frase tão estúpida que acabei colocando meu ponto de vista de forma irônica e rude: «uau, isso é que eu chamo de distorcer um conceito! parabéns por compartilhar essa idiotice!». Meu amigo ficou com preguiça do meu comentário («zzzzzzzzzzzzz») e depois disse, numa clara alusão à Marcha das Vadias, que iria fazer uma marcha pelo direito de expressar o que pensa sem ser oprimido pelos próprios amigos.
Mesmo que eu tivesse sido mais polida, mais refinada, o fato de eu discordar da frase também seria considerado como «opressão» ou, melhor dizendo, «repressão». Mas isso acontece porque no Facebook só se pode concordar. Ou «curtir». Não existe a opção «não curtir». Ou você ignora o assunto, ou prepara os dedinhos para um duelo escrito, numa plataforma que não favorece o debate, pois que só favorece o ego. E foi isso que eu disse a ele (que lá só podemos concordar) e desejei-lhe boa sorte na marcha, torcendo para que em seu caminho exista uma mão dupla de liberdade de expressão (o meu direito de discordar).
N'outro dia um outro amigo veio conversar comigo em modo privado, por mensagens, a respeito do meu texto «Feminismo é o contrário de machismo?». Ele começou dizendo que já não tem mais esse tipo de discussão porque é sempre muito desgastante e não leva a nada. Ele faz parte da ala que tem ojeriza ao termo «feminismo», acredito eu por causa da misandria. Mas, «porque é você», ele topou debater. De todas as coisas que ele me disse, o que mais ficou marcado em mim foi sua revolta pelo comportamento sexual digamos, predatório, das meninas de hoje em dia. Que ela ficam, beijam e transam por uma noite, e não querem mais saber. Ele acha que é ridículo as mulheres se comportarem como os homens sempre se comportaram.
Essa senhora tem todos os naipes, mas as más línguas dizem que ela não é uma dama
Do ponto de vista histórico, tendo em vista séculos de repressão à sexualidade feminina, acho uma maravilha que as mulheres façam isso e não sejam mortas à pedrada em praça pública. Do meu ponto de vista pessoal, não acho que a emancipação feminina virá com noitadas e noitadas de transas inconsequentes. As pessoas sobrevalorizam o sexo, e isso é um saco. Tem muitos adolescentes cuja consistência mental é mais mole do que a minha famosa conserva de berinjela. Eles/elas acham que são muito rebeldes em sair transando com todo mundo, e usando-se uns aos outros como objetos/produtos sexuais. Não acredito que exista apenas uma forma de amar ou de exercer a sua sexualidade, mas também não acredito que a molecada saiba o que está fazendo, se seu comportamento não é apenas reflexo de uma lavagem cerebral que sexualiza a tudo e a todos (até as frutas). Por fim, ele disse: «Não existem mais homens cavalheiros porque não existem damas».
Damas do século 19
Como as do século 19, bem, acho que não existem mesmo. Ainda bem. Todos os paradigmas mudaram. E o conceito de mulher «ou santa ou puta» já deu muita dor de cabeça pra mulherada, desde os tempos de Jesus Cristo. Eu conheço duas mulheres que são o oposto uma da outra no que concerne à sexualidade: uma casou com o primeiro namorado, com quem perdeu a virginidade; e a outra «deu mais que chuchu na serra». Ambas fizeram o que queriam, o que sentiam vontade de fazer. Hoje em dia, uma virou mãe. E a outra sossegou lá com o seu namorado. Ambas são pessoas fantásticas, inteligentes, engraçadas, guerreiras e merecedoras de igual respeito. Corações foram partidos? Sim, em ambos os casos, por ambas as partes. Mas elas sobreviveram bem. São duas damas, e merecem ser respeitadas a despeito do tratamento que elas dão à própria vagina. Ser uma dama deveria estar além disso. Ou, ainda, se todas as mulheres devem ser damas, então os homens deveriam ser todos cavalheiros.
Duas damas de comportamentos opostos, mas que têm meu respeito do mesmo jeito
E cavalheirismo não é machismo, pois senão o «damismo» seria feminismo, e o feminismo certamente não se ocupa de dar aulas de etiquetas para as meninas. Cavalheirismo, lá em último lugar, tem relação com o tratamento que um homem dá a uma mulher. É, muito antes disso, uma relação do homem para com o mundo, seja de qual sexo (ou até mesmo espécie) for a pessoa. Para encerrar o assunto, acho que esta imagem explica bem o conceito do que é ser um cavalheiro.
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Talvez ainda precisemos pensar e definir o que seria uma dama no século 21. Afinal, qual é a dama ideal?
Duas damas-de-ferro. A primeira, também conhecida pelo gracioso nome de «Virgem de Nuremberg», era um método de tortura medieval. A Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher também recebeu a alcunha de dama-de-ferro, mas não sabemos se ela era virgem, santa ou puta
A personagem «Dama», da animação da Disney «A Dama e o Vagabundo», e o jogo de damas, um dos meus preferidos
Damas de todos os naipes, para todos os gostos
Retrospectiva de Glauber Rocha na Cinemateca Portuguesa
Quando eu tinha 20 anos eu participei, pela primeira vez, da realização de um curta-metragem, na função de produtora de objetos, de cenário e de figurino, função que dividi com duas outras moças. Foi uma tarefa bem-sucedida, posto que o filme recebeu o prêmio de Melhor Figurino na Mostra da ABD-Goiás, em 2004. Foi o meu primeiro filme, e o meu primeiro prêmio. O diretor do filme não dividiu a grana do prêmio conosco - e foi logo aí que presenciei o primeiro racha na equipe que até então era composta por amigos. Uma das figurinistas ficou particularmente chateada com isso, mas o engraçado mesmo é que, quando o filme que ela dirigiu (e eu produzi, e no qual todo mundo trabalhou de graça) ganhou o prêmio de Melhor Filme Univesitário, ela não dividiu o prêmio com ninguém - e depois que a roteirista chiou e bradou e bateu o pé, ela ganhou lá uns 300 reais. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né?
Quando o «Boca no Lixo» ganhou um prêmio de 10 mil reais de Melhor Curta Goiano, em 2007 ou 2008, não me lembro bem, todo mundo que trabalhou ganhou a sua parte no prêmio - e eu fiz questão de que fosse uma grana boa, porque não foi um prêmio de direção, foi um prêmio de equipe. A co-diretora do filme era a mesma menina do filme que mencionei no parágrafo anterior. Diante da minha veemência, ela não se opôs completamente, mas achou que as fatias estavam grandes demais. De todo modo, ficou o valor que eu estipulei.
O cinema, como qualquer outra atividade humana, não prescinde da ética, não prescinde de uma regulação. As pessoas pensam diferentemente umas das outras, mas elas precisam chegar num acordo. Cada um faz o filme que quiser, produz da maneira que lhe é conveniente, mas precisa arcar com as consequência do seu modus operandis e enfrentar as críticas, e defender o que pensa. Nenhum filme é unanimidade, e nenhum filme escapa da dimensão ética, seja no estágio de pré-produção, pós ou quando cai na mão da plateia.
Lá se vão oito anos desde o meu debut como figurinista, e lá se vão seis anos do debut como diretora de uma ficção. Não é muito tempo, eu sei, mas já é uma estrada, um atalho ou um caminho. Nesse período, fui iniciada na cinematografia brasileira e mundial, e um dos expoentes de ambas é o famoso Glauber Rocha, muito conhecido também pelo íntimo e casual Glauber. No Brasil, e isso eu já até li n'algum lugar, existe uma proximidade muito grande com seus «ídolos», com suas figuras públicas. É uma intimidade que o povo tem com as pessoas famosas, seja de quais áreas forem, e que eu acho particularmente admirável. É o Glauber, é o Chico, é o Caetano, é o Gil, é Bethânia, é Gal. Talvez o único que não seja assim chamado sem o sobrenome é o Sílvio Santos, mas é porque o povo fala como se fosse uma coisa só: Silviosantos.
Pois é. A Cinemateca Portuguesa, o primeiro lugar que eu conheci quando cheguei em Lisboa, há quase 2 anos, vai fazer uma retrospectiva do Glauber. E eu, que apesar de há tanto tempo envolvida com isso de cinema, nunca consegui ver um filme inteiro dele (exceto pelos curtas, Di Cavalcanti e Maranhão 66) sem dormir ou desistir, ou porque estava mesmo com sono, ou porque a cópia da internet era tão ruim que eu não via nem entendia nada do que o povo dizia.
Mas agora eu não tenho mais desculpa, porque a Cinemateca vai exibir as películas restauradas, com legenda e tudo o que se tem direito. Estou mesmo emocionada com a possibilidade de ver o Glauber em tela grande, no cinema, em 35mm (sou fetichista mesmo). Quero ver todos os filmes, todos, porque quero aproveitar essa oportunidade de, fora do Brasil, ver o seu ícone máximo do cinema.
Fiz uma agenda e vou tentar cumpri-la à risca.
Dia 10, 19h
Barravento
Dia 12, 19h30
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Quando o «Boca no Lixo» ganhou um prêmio de 10 mil reais de Melhor Curta Goiano, em 2007 ou 2008, não me lembro bem, todo mundo que trabalhou ganhou a sua parte no prêmio - e eu fiz questão de que fosse uma grana boa, porque não foi um prêmio de direção, foi um prêmio de equipe. A co-diretora do filme era a mesma menina do filme que mencionei no parágrafo anterior. Diante da minha veemência, ela não se opôs completamente, mas achou que as fatias estavam grandes demais. De todo modo, ficou o valor que eu estipulei.
O cinema, como qualquer outra atividade humana, não prescinde da ética, não prescinde de uma regulação. As pessoas pensam diferentemente umas das outras, mas elas precisam chegar num acordo. Cada um faz o filme que quiser, produz da maneira que lhe é conveniente, mas precisa arcar com as consequência do seu modus operandis e enfrentar as críticas, e defender o que pensa. Nenhum filme é unanimidade, e nenhum filme escapa da dimensão ética, seja no estágio de pré-produção, pós ou quando cai na mão da plateia.
Lá se vão oito anos desde o meu debut como figurinista, e lá se vão seis anos do debut como diretora de uma ficção. Não é muito tempo, eu sei, mas já é uma estrada, um atalho ou um caminho. Nesse período, fui iniciada na cinematografia brasileira e mundial, e um dos expoentes de ambas é o famoso Glauber Rocha, muito conhecido também pelo íntimo e casual Glauber. No Brasil, e isso eu já até li n'algum lugar, existe uma proximidade muito grande com seus «ídolos», com suas figuras públicas. É uma intimidade que o povo tem com as pessoas famosas, seja de quais áreas forem, e que eu acho particularmente admirável. É o Glauber, é o Chico, é o Caetano, é o Gil, é Bethânia, é Gal. Talvez o único que não seja assim chamado sem o sobrenome é o Sílvio Santos, mas é porque o povo fala como se fosse uma coisa só: Silviosantos.
Pois é. A Cinemateca Portuguesa, o primeiro lugar que eu conheci quando cheguei em Lisboa, há quase 2 anos, vai fazer uma retrospectiva do Glauber. E eu, que apesar de há tanto tempo envolvida com isso de cinema, nunca consegui ver um filme inteiro dele (exceto pelos curtas, Di Cavalcanti e Maranhão 66) sem dormir ou desistir, ou porque estava mesmo com sono, ou porque a cópia da internet era tão ruim que eu não via nem entendia nada do que o povo dizia.
Mas agora eu não tenho mais desculpa, porque a Cinemateca vai exibir as películas restauradas, com legenda e tudo o que se tem direito. Estou mesmo emocionada com a possibilidade de ver o Glauber em tela grande, no cinema, em 35mm (sou fetichista mesmo). Quero ver todos os filmes, todos, porque quero aproveitar essa oportunidade de, fora do Brasil, ver o seu ícone máximo do cinema.
Fiz uma agenda e vou tentar cumpri-la à risca.
Dia 10, 19h
Barravento
Cartaz no Brasil, França e Reino Unido
Dia 10, 22h
Terra em Transe
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Um cartaz brasileiro que eu ainda não conhecia, a versão alemã e a versão francesa.
Clique para ver maior.
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Dia 13, 22h
Câncer
Dia 14, 21h30
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (a.k.a. Antônio das Mortes)
Várias versões, inclusive uma (a quarta) que me parece ser alemã
Dia 17, 21h30
Der Leone have sept cabeças (O Leão de Sete Cabeças)
Cartaz francês e alemão, sendo que a ilustração do primeiro é uma obra do Kandinski
Dia 18, 21h30
Cabezas Cortadas
Cartaz alemão (ou austríaco?) e o cartaz brasileiro
Dia 24, 22h
História do Brasil
O próprio
Dia 26, 22h
Claro
Um arremedo de cartaz, não sei se é o original
Dia 27, 22h
A Idade da Terra
Dia 27, 19h
Curtas-Metragens
Pátio | Amazonas, Amazonas | Maranhão 66 | Di Cavalcanti
O polêmico filme feito no enterro do pintor Di Cavalcanti
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